Razão Versus Fé - O Papa E A Democracia
Site :
Centro de Mídia Independente
Autor : Hetero
Liberal
Data : 26/04/2005
Fonte : http://www.brasil.indymedia.org/pt/red/2005/04/315404.shtml
O dilema
entre razão é fé religiosa não passa de uma abstração, cujo objetivo é uma tentativa
desajeitada de desqualificar a democracia. Ao contrário do que pensa o novo
papa, a verdade é sim determinada pelo voto da maioria.
Todos já ouviram em alguma parte a discussão sobre a questão de uma suposta
oposição entre razão é fé, que deve ser solucionada por meio de um sem número
de malabarismos mentais e argumentos pseudofilosóficos.
A realidade é muito diferente. Na prática não existe essa questão a não ser
como uma construção meramente abstrata. Senão vejamos: Quais as decisões em
nossa vida que seriam baseadas no uso exclusivo da razão e quais se baseariam
apenas em algum tipo de fé? A verdade é que nenhuma.
Suponhamos duas afirmações: 1) Dado um triângulo retângulo, o quadrado de sua
hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos seus catetos. 2) Jesus caminhou
sobre as águas do mar. Qualquer um diria que a aceitação da primeira depende
da razão e que a segunda depende da fé.
Mas as questões sobre as quais temos de tomar decisões no dia-a-dia são muito
mais complexas, e o número de variáveis infinitamente maior do que a medição
de uma figura geométrica ou da aceitação de um fato que, por mais inusitado
que seja, não tem maiores conseqüências.
Se decidirmos nos submeter a uma cirurgia, não será porque os médicos nos fizeram
uma demonstração matemática irrefutável. Não escolheremos o hospital depois
de um criterioso estudo de suas instalações, da análise de sua administração
e do currículo de seus funcionários.
Tomaremos essas decisões por termos fé no diagnóstico de médicos em quem confiamos.
Escolheremos o hospital por confiarmos nas recomendações de pessoas que já utilizaram
seus serviços. Em outras palavras, nossas decisões terão muito pouca relação
com o uso de nossa própria razão.
Da mesma forma, se somos cristãos, aceitaremos que Jesus andou sobre as águas
porque isso está escrito nos evangelhos, que existem ha dois milênios; é aceito
por várias igrejas e também é a opinião de milhares de clérigos e milhões de
crentes como nós. Em resumo, isso nos parece razoável.
Mas, se alguém nos afirmar que um determinado jogador de futebol ou um cantor
de rap é capaz de ressuscitar os mortos, a questão é muito diferente. Imediatamente
exigiremos uma imensa quantidade de provas cientificas, de demonstrações e de
documentação, para que passemos, eventualmente, a acreditar nisso.
Por outro lado, praticamente nenhuma pessoa sem uma excepcional formação em
matemática e física, é capaz de realmente entender a teoria da relatividade.
No entanto nós a aceitamos sem maiores discussões, com suas respectivas conclusões,
que muitas vezes ferem o nosso bom senso.
Por que nós, levados pela fé, não aceitamos sem discutir que alguém ressuscita
os mortos durante um jogo de futebol ou num show musical, e levados pela razão,
não rejeitamos uma teoria incompreensível que nos afirma que dois relógios marcam
tempos diferentes, dependendo da velocidade em que se desloquem?
A resposta a essa aparente ambigüidade é simples: Acreditamos na proeza de Jesus
e na teoria de Albert Einstein porque a maioria das pessoas que conhecemos também
acredita. Em outras palavras, nossas crenças são ditadas pela opinião da maioria
e não por irrefutáveis demonstrações lógicas ou por ou surtos irracionais de
fé cega.
Segundo a opinião do novo papa Bento16: "A verdade não é determinada pelo voto
da maioria" (citado por VEJA, 27/04, pág. 75). Pois bem. Essa afirmação parece
bastante coerente. Não se pode fazer uma eleição para se determinar o valor
correto das incógnitas de uma equação matemática, nem teria sentido um plebiscito
para definir a validade da lei da gravitação universal.
O papa vai mais longe: "A sensação de que a democracia não seja ainda a forma
justa de liberdade é bastante geral e se difunde cada vez mais". Ou seja, uma
forma "justa" de liberdade ainda está para ser proposta. A democracia não é
de modo algum suficiente.
Há muito de verdade em tudo isso. Só que existe um sério problema para as pretensões
do ex-cardeal Ratzinger. Como se pode estabelecer o que seja a "verdade" a não
ser pela razão? A teoria da relatividade pode ser provada alem de qualquer dúvida.
A afirmação de que alguém andou sobre as águas no mar da Galiléia não.
As hipóteses cientificas podem ser testadas por qualquer um. As afirmações com
base na fé só têm valor caso estejam ligadas às tradições e as instituições
que as sustentam. Nesse caso, a verdade do papa se aplica apenas aos que aceitam
sua opinião. A verdade dos protestantes, judeus, muçulmanos, hindus e budistas,
ou dos que simplesmente não tem religião, será necessariamente diferente.
O fato de Albert Einstein ser judeu, alemão e ateu, não impede um muçulmano
de aceitar a teoria da relatividade, caso seja capaz de entende-la. Mas um católico
jamais aceitaria a "verdade" de que Alá é o único Deus e Maomé o seu único profeta.
Por outro lado, em questões complexas e polemicas, envolvendo ética, comportamentos
e novas realidades, é impossível estabelecer uma "verdade". Simplesmente as
ciências não têm respostas e as diversas correntes de pensamento, religiosas
ou não, estão divididas, mesmo entre seus próprios membros mais eminentes.
Nesse caso, a resposta da democracia é simplesmente optar pela opinião da maioria
- sem a pretensão de que essa detenha de fato a verdade – ao invés da imposição,
por uma minoria, da suposta verdade que diz possuir.
O que o novo papa pretendeu dizer na realidade é que a democracia é falha porque
não necessariamente aceita a sua "verdade". Se num plebiscito se admite o divórcio,
o direito ao aborto ou a união civil entre pessoas do mesmo sexo, isso é uma
falha grave da democracia, que não vê que a "verdade" sobre esses assuntos está
exposta nas encíclicas dos papas, da mesma forma que os postulados da geometria
e da matemática.
Se os representantes de um Estado, eleitos pelo povo, decidem distribuir anticoncepcionais
para mulheres pobres ou camisinhas para combater o flagelo da AIDS, é porque
se recusam a ver a "verdade", perfeitamente demonstrada pelas interpretações
da bíblia feitas pela igreja católica.
Talvez a forma "justa" de liberdade - que transcenderia a democracia - que Bento16
esteja propondo, tenha alguma relação com o sistema em que as pessoas viviam
nos tempos de maior esplendor da instituição que ele presidiu como cardeal:
A Santa Inquisição.