NOTA: É importante notar que existem falácias de tal forma cristalizadas
em certos grupos ou comunidades, tão repetidas e consagradas no seu discurso,
que dificilmente terão sua falsidade aceita. Em se tratando de assuntos religiosos,
isso se complica, pois o que é uma falácia para um, pode ser uma verdade irretorquível
para outro.
Também não é demais reiterar que esta é uma seleção baseada
na experiência do autor em debates pessoais e pela Internet.
No fim do texto, incluímos algumas sugestões de links para o estudo da lógica
e das
falácias em particular.
Raciocínio circular ou petição de princípios:
Esse é um erro comuníssimo em debates ou pregações religiosas. Trata-se simplesmente
de afirmar a mesma coisa com outras palavras. Alguns exemplos:
1. "Por que a Bíblia é a Palavra de Deus? Ora, porque ela foi inspirada
pelo próprio Criador."
Ou, ainda, no que eu chamaria de "variação Tostines":
2. "A Bíblia é perfeita porque é a Palavra de Deus. E como sabemos que
ela é a Palavra de Deus? Pela sua perfeição."
Esse exemplo é fácil de encontrar, especialmente nos meios evangélicos mais
conservadores. É importante ressaltar que ele foi posto aqui apenas para ilustrar
um tipo de raciocínio falacioso muito freqüente, não para desmerecer a Bíblia
ou a crença de quem quer que seja.
Um exemplo laico agora:
3. "Eu acho que alpinismo é um esporte perigoso porque é inseguro e arriscado."
Dizer que algo é "inseguro e arriscado" não é o mesmo que dizer que ele é
"perigoso"? Ora, o que essa "explicação" acrescentou que justificasse a idéia
de que alpinismo é perigoso? Nada.
Simplesmente, repetiu-se a primeira afirmação com outras palavras.
4. "Por que eu sou a pessoa mais indicada para o trabalho? Porque eu descobri
que, dentre todos os outros candidatos, e considerando minhas qualificações,
eu sou a melhor pessoa para o trabalho."
Valem as mesmas observações. Porém prestemos atenção num detalhe: às vezes,
quando a "justificativa" é muito longa, podemos nos perder e não notarmos
que a pessoa acabou não dando evidências para aquilo que disse. Um exemplo
trágico poderia ser a frase de Goebbels, propagandista do regime nazista alemão:
"Uma mentira, repetida muitas vezes, acaba se tornando uma verdade."
Afirmações muito repetidas podem ganhar um status tal que as pessoas
podem nunca ter parado para pensar realmente no porquê de acreditarem nelas.
Crenças inculcadas desde a infância ou em períodos de fragilidade emocional
são casos típicos. Por isso, tenhamos a máxima prudência com aquilo que nos
chega aos ouvidos e com a maneira como abordaremos certas crenças arraigadas
num debate; antes de questionar os outros, convém darmos uma olhada na nossa
própria fé em certas premissas, que talvez nunca tenhamos analisado criticamente.
Egocentrismo ideológico:
Essa provavelmente não será achada em manuais de lógica. O que eu batizei
de "egocentrismo ideológico" nada mais é do que um primo do raciocínio circular.
Trata-se da incapacidade ou recusa sistemática em se pôr de um ponto neutro
para analisar alguma coisa. O cerne do problema, aqui, é mais a atitude do
debatedor do que propriamente sua lógica. Mais uma vez, recorramos a exemplos
reais e muito comuns:
1. "Como eu sei que a Bíblia contém toda a Palavra de Deus, perfeita e
eterna? Ora, porque, conforme vemos em Segunda Timóteo 3:16..."
2. "Você tem que crer naquilo que Jesus disse, porque ele falou 'Ninguém
vai ao Pai senão por mim.'"
3. "A minha religião é a única verdadeira, e você não pode questionar isso.
Veja só o que nosso fundador diz em..."
4. "Por que o Papa, em questões doutrinárias, é infalível? Porque o Concílio
de ..., sob a inspiração da Assistência Extraordinária do Espírito Santo dada
ao líder da Igreja, que o promulgou, declarou assim."
Onde o erro? Ora, todos os declarantes estavam conversando com alguém que
é cético e está questionando a autoridade da fé que eles têm. E o que
eles fazem para demonstrar que estão certos? Recorrem à mesma autoridade que
está sendo questionada.
Apelar para uma autoridade que só é reconhecida por uma das partes é sempre
desaconselhável quando a finalidade é a persuasão. Se em matérias científicas,
por exemplo, o currículo de alguém pode dar uma boa idéia de sua capacidade
para opinar sobre um assunto, em religião tal não se aplica da mesma forma.
Por isso, é sempre bom recorrer a outros argumentos diante de um cético; a
imposição de autoridade simplesmente não funcionará.
Supersimplificação e raciocínio "8 ou 80":
Essas são praticamente inevitáveis, e se você não se deparar com elas, é porque
está debatendo filosofia ou seu interlocutor é diplomata profissional. :-)))
Um bom argumento deve resumir as questões em debate e simplificá-las para
o leitor ou a audiência. Dizemos que há supersimplificação quando isso é feito
de tal forma que muitos detalhes importantes são deixados de lado e o resumo
feito só permite uma única conclusão. Exemplo:
1. "Os nazistas usaram alguns escritos de Nietzche em sua propaganda. A
irmã de Nietzche era nazista. Portanto, Nietzche era nazista."
Já o raciocínio "8 ou 80", conhecido também como falso dilema, é aquele que
só admite duas possibilidades antagônicas numa determinada questão, mesmo
quando haja muitas mais, sendo que a pessoa que o utiliza está, claro, do
lado certo. Essa falácia pode ser assim resumida:
2. "Ou você está totalmente certo ou eu estou totalmente errado"
Exemplo radical, não? No entanto, essa é a forma como muitas pessoas pensam
em determinadas áreas: sem meios-termos, tudo ou é preto ou é branco, sem
variações de cinza. Esse é um meio confortável de simplificar demais assuntos
complexos como moral e espiritualidade, pois é a negação do diálogo.
Eis algumas possíveis aplicações religiosas desse raciocínio falacioso:
3. "A Bíblia alega ser a Palavra de Deus e sem erros. Se você achar um
erro nela, então ela tem de estar totalmente errada."
4. "Fulana tinha câncer e fez uma 'cirurgia espiritual' para ajudar na
cura. E, de fato, ela se curou. Ou a cura de Fulana na 'cirurgia espiritual'
foi um milagre de Deus ou um prodígio do demônio. Deus não age nessa religião.
Então, só pode ter sido obra de Satanás."
Cito esses exemplos por já ter visto alguém usá-los num debate. Fora a questão
de fé envolvida aí, o erro de raciocínio é evidente, pois, no primeiro caso,
o fato de achar um erro na Bíblia ou em qualquer outro livro religioso não
significa invalidá-lo por inteiro, obviamente, mas apenas exigir do leitor
um pouco mais de discernimento ao lê-los, sem o falso conforto de formar uma
opinião inflexível e julgar tudo que ali está sem o trabalho de um maior exame.
Já no segundo, fora o egocentrismo ideológico que não contribui para persuadir
a audiência nem apresenta evidências para comprovar sua tese, excluem-se as
outras possibilidades de explicação: da cura ter-se dado naturalmente, em
virtude dos tratamentos médicos a que Fulana estava se submetendo, ou do fenômeno
de sugestão, etc.
Essas falácias nos levam diretamente a uma outra, também muito comum, chamada...
Generalização apressada:
Falácia de generalização apressada, como o nome indica, é aquela em que uma
pessoa constrói algumas premissas para um argumento e, em seguida, o conclui
rápido demais. Noutras palavras, é tirar uma conclusão com base em evidências
insuficientes, julgar todas as coisas de um determinado universo com base
numa amostragem muito pequena. Conseqüentemente, ela passa por cima de detalhes,
fatores, circunstâncias e mesmo dos casos que poderiam refutar a universalidade
de suas premissas. É claro que todo argumento presume algum grau de generalização,
mas, neste caso, ela é excessiva. Vejamos dois exemplos:
1. "Minha avó tem dor de cabeça crônica. Meu vizinho também tem e descobriu
que o motivo é um câncer. Logo, minha avó tem câncer."
2. "Nas duas vezes em que fui assaltado, os bandidos eram negros. Bem que
minha mãe fala que todo negro tem tendência para ladrão!"
Dito assim, parece um erro tão idiota que uma pessoa teria de ter muito pouca
inteligência ou instrução para incorrer nele. Mas não é bem assim. Esse tipo
de falácia é muito freqüente, dentre outras coisas, em certas frases discriminatórias
muito usadas. Quem nunca ouviu algo parecido com os exemplos a seguir?
2. "O pastor da igreja X roubou o dinheiro dos fiéis. Fulano é pastor.
Logo, também é ladrão."
3. "Meu tio é candomblecista e já matou um bode para oferecer ao orixá.
Beltrano foi ao terreiro de candomblé. Logo, ele também mata animais para
o orixá."
4. "Fulano entrou para a igreja X e ficou fanático. Logo, todos os fiéis
da igreja X são fanáticos."
5. "Fulano entrou para uma igreja protestante e ficou fanático. Logo, todos
os protestantes são fanáticos."
6. "Crentes/muçulmanos/bramanistas/etc. são todos fanáticos."
7. "Nas duas vezes em que fui assaltado, os ladrões eram negros. Bem que
minha mãe falava que todo negro tem tendência para ser bandido!"
8. "Todo americano é racista."
É no dia-a-dia que esse tipo de erro, muito bom para cunhar bordões preconceituosos,
é mais encontrado. Alguns de nós podem até ter crescido ouvindo frases dessa
espécie, tendo-as incorporado de tal maneira que sequer lembramos de questioná-las.
Freqüentemente são generalizações feitas com base num único episódio particular,
ignorando as diversas nuances que ele possa ter e aplicando suas características
a todo um grupo de pessoas ou doutrinas. Devemos ter cuidado com elas, são
falácias que podem simplesmente passar despercebidas por anos.
Ataque pessoal ou argumento ad hominem:
Essa falácia é fácil de reconhecer. Consiste simplesmente em atacar uma pessoa
em vez dos argumentos que ela expõe, usar um traço de seu caráter como pretexto
para desqualificar ou ignorar o que ela diz. Pode ser usado quando não se
sabe como refutar o que o oponente diz ou simplesmente por excesso de preconceito,
sendo um meio muito cômodo (e desonesto) de fugir do debate. Vejamos:
1. "O que Fulano diz sobre o balanço da empresa não pode ser levado a sério,
afinal ele traiu a mulher."
2. "O senhor não tem autoridade para criticar nossa política educacional,
pois nunca concluiu uma faculdade."
3. "Beltrano não entende nada de espiritualidade, ele é gay."
4. "A religião é uma coisa má. Veja só quantas guerras foram provocadas
por ela."
5. "Você não pode me criticar por comer carne. Afinal, você usa sapatos
de couro."
6. "Não dêem ouvidos ao que ele diz. Como ele abandonou nossa fé, as críticas
dele à nossa organização só podem ser mentiras."
Talvez nesta última modalidade o argumento ad hominem seja a falácia
com mais possibilidades de ser explorada autoritariamente, pois a melhor forma
de se manter o controle sobre um grupo é justamente fazer com que ele evite
qualquer contato com informações ou opiniões dissidentes. Não é por outra
razão que uma das primeiras medidas de regimes políticos ilegítimos é a censura
e perseguição a seus críticos e dissidentes.
Religiosamente falando, isso é feito pela difamação de ex-membros, especialmente
se eles tentam explicar as razões por que deixaram o grupo religioso a que
pertenciam. Em vários casos, generalizações excessivas, termos pejorativos
e mesmo a proibição de qualquer contato são usados para se criar a idéia de
que todosos ex-membros têm falhas de caráter, ignorando a possibilidade
de abandono por razões de consciência, discordância doutrinária e toda uma
série de fatores que podem levar alguém a reavaliar honestamente suas crenças.
Assim, abafa-se na fonte a possibilidade de um debate ou questionamento por
parte dos que ficaram, já que eles serão desencorajados a procurar entender
os motivos dos dissidentes.
6. "Os argumentos da empresa X contra nossa fusão não merecem crédito,
pois eles são nossos concorrentes e seus interesses comerciais estão em jogo."
(Também chamado de culpa por associação)
Neste último exemplo, o fato de que a empresa X tem motivos comerciais para
se opor à fusão das concorrentes não invalida os seus argumentos e tampouco
faz com que os daqueles a favor da fusão mereçam mais crédito. Fosse assim,
por exemplo, poderíamos invalidar a priori todo os argumentos de defesa
do réu de um processo judicial, já que são motivados pelo seu interesse em
continuar livre. Embora em questões como essa o interesse ou as crenças particulares
de alguém possam sugerir que os argumentos apresentados provavelmente
serão tendenciosos, isso não é desculpa para que sejam ignorados ou abordados
apenas de forma indireta e inadequada através de um truque retórico.
Outra variante nos leva ao famoso ditado "faça o que eu digo, não o que eu
faço", o chamado tu quoque (latim para "você também").
7. "Você diz que o cigarro é um vício horrível, mas ainda não conseguiu
parar. Por que eu deveria lhe dar ouvidos, então?"
O fato de a pessoa que nos fala ainda fumar não quer dizer que o cigarro seja
menos prejudicial. Ela pode não ser o melhor exemplo de conduta, mas nem por
isso deixa de ter razão nesse ponto.
Um argumento ad hominem não é necessariamente uma falácia, desde que
aplicado numa circunstância adequada. Por exemplo, se o seu banco nomeia para
o cargo de diretor uma pessoa com um passado de notórios crimes financeiros,
você não pode ser recriminado por procurar outra instituição. Neste caso,
a probidade da pessoa é tão relevante quanto a lógica do que ela diz. Trata-se,
então, de uma precaução razoável e justificada. Agora, se essa mesma pessoa,
por outro lado, resolve debater a possibilidade de vida após a morte, já é
outra história...
Mudança do ônus da prova
Uma lei tácita em qualquer discussão que se preza afirma que uma pessoa que
afirma algo deve demonstrá-lo de forma convincente. Se o que se afirma é algo
extraordinário, difícil de acreditar, espera-se que a sua fundamentação seja
proporcional a isso. Isso é senso comum: se alguém afirma que recebe visitas
diárias de extraterrestres, o mínimo que se pode esperar é uma prova física
e indiscutível dessas visitas: fotos, artefatos desconhecidos, quem sabe a
apresentação dos próprios. Porém, o mais comum é o seguinte:
1. Dizer que os alienígenas não existem é ridículo! Prove!
Ou ainda:
2. Você diz que demônios não existem? Prove que não!
3. Prove que o sol não parou conforme está relatado na Bíblia!
Ora, o ônus da prova é para quem afirma. Nenhum cientista enuncia uma lei
e pede para os outros provarem que ele está errado. Pelo contrário, ele é
quem deve dizer por que razão está certo.
Uma falácia aparentada é o...
Apelo à ignorância:
Resumida na frase "ausência de evidência não é evidência de ausência".
Consiste em usar a falta de provas (ou a inabilidade do oponente em apresentá-las)
a favor ou contra algo para provar uma outra tese.
1. "Você não tem provas de que Deus existe. Logo, ele não existe."
2. "Você não tem provas de que Deus não existe. Logo, ele existe."
3. "É claro que houve um dilúvio; ninguém nunca conseguiu provar que não
houve."
Acontece que a mera falta de provas não prova nada. No máximo, pode
sugerir, mas nunca fechar questão. O fato de eu não poder provar empiricamente
que, digamos, os buracos negros existem não quer dizer que eles não podem
existir, necessariamente. Ora, se temos duas teses opostas, e uma não tem
evidências confiáveis a seu favor e a outra sim, fiquemos com esta. Mas se
ela também não possui evidências, não será o problema da outra que a tornará
legítima. Por isso, devemos tomar todo o cuidado para não cair num falso dilema
(vide acima) e nos deixemos enganar por dicotomias falsas, como no exemplo
a seguir:
3. "O 'elo perdido' entre o homem e os primatas não foi encontrado até
hoje. Isso nos mostra que a Teoria da Evolução está errada e o livro bíblico
de Gênese é que está com a razão ao falar da criação do primeiro casal por
Deus."
Aqui o autor da frase, além de reduzir toda a Teoria da Evolução ao caso do
Homo sapiens, esqueceu que o fato de que se ela, hipoteticamente, está
errada, isso não quer dizer que o Gênese esteja certo.
Apelo à multidão:
Quem conhece a expressão "maria-vai-com-as-outras" certamente saberá quando
uma falácia de apelo à multidão está sendo usada. Basicamente, esse é o tipo
de raciocínio que diz "se todos fazem, então eu devo fazer também". Políticos
bons de voto adoram essa linha de argumento, religiosos proselitistas também.
1. "Você não acha que se uma religião cresce tanto em tão pouco tempo é
porque Deus está com ela?"
2."Dez milhões de pessoas não podem estar erradas. Junte-se à nossa igreja
você também."
3. "Isso é uma verdade tão sublime que um milhão de pessoas já a aceitaram
como regra de fé."
4. "Essa crença tem sido o conforto espiritual de milhões de pessoas em
todo o mundo, há séculos. Incontáveis foram aqueles que deram suas vidas pelo
direito de professá-la. Como você pode desprezar o sacrifício e as esperanças
de toda essa gente?"
A questão essencial aqui é que quantidade não é sinônimo de qualidade. O que
esse tipo de falácia faz é desviar a atenção do tema tratado para um outro,
aparentemente importante, mas que é um tópico à parte. O fato de tantas pessoas
acreditarem em algo não significa que seja verdade. Por exemplo, há poucos
séculos, acreditava-se que o oceano era repleto de monstros que inviabilizariam
viagens transatlânticas, e hoje podemos viajar em cruzeiros ao redor do mundo
com uma boa margem de segurança. Em religião, especificamente, é algo ainda
pior: se dez milhões acreditam numa coisa, uns 300 milhões acreditam em outra
bastante diferente; e mesmo a religião mais significativa numericamente não
tem uma vantagem tão grande, pois a soma das outras é ainda superior ao número
de fiéis dela. Existem formas mais inteligentes e honestas de se buscar o
consenso do interlocutor e da audiência.
Apelo ao medo ou argumento ad baculum:
Aqui, o instrumento de coerção não é a pressão da maioria, mas o temor das
conseqüências de não adotarmos o ponto de vista da pessoa com quem debatemos.
Mais um exemplo tirado de diálogos religiosos:
1. "Quanto ao inferno, veja só: eu acredito, você não. Se eu estiver errado,
e você certo, não terei perdido nada. Mas já parou para pensar que, se eu
estiver certo e você errado, você pode sofrer eternamente por isso?"
Ora, isso é um raciocínio ou uma ameaça? Pois um raciocínio é uma demonstração
racional da validade de uma determinada idéia, o que não é o caso. Então como
analisar esse tipo de argumento? Bem, existem dois tipos de razão para se
adotar uma determinada crença: a racional e a prudente. A primeira é baseada
na lógica e na objetividade; a segunda, em algum outro fator importante para
a pessoa, como medo ou benefício pessoal, mas que não influi na veracidade
ou falsidade da crença.
Quando alguém usa um argumento ad baculum, está na realidade dizendo
que, se uma idéia ou concepção nos assusta, então é melhor crer que ela é
verdade, mesmo que não haja uma razão lógica para demonstrá-lo. É fácil mostrar
o absurdo disso, bastando mudar o motivo do medo:
2. "Eu acredito que o bicho-papão mora no armário, você não acredita. Se
eu estiver errado, não terei perdido nada. Mas já parou para pensar que, se
eu estiver certo e você errado, ele pode devorar você?"
Ou ainda, mais sutilmente:
3. "É melhor você votar pela condenação do réu ou você pode ser a próxima
vítima dele."
Se para condenar o réu é necessário apelar para o medo dos jurados em vez
de para as provas, então algo muito errado deve estar acontecendo...
Apelo à tradição:
Uma variedade do apelo à multidão, só que o argumento fundamental neste caso
é "quanto mais antigo, melhor". Quando uma pessoa apela para a tradição, está
apostando que crenças antigas estão sempre certas, o que obviamente não é
verdade, como a medicina demonstra quase todos os dias. Vejamos alguns exemplos:
1 . "A Astrologia é uma arte adivinhatória praticada há milhares de anos
no Oriente. Conta-se que os antigos reis da Babilônia teriam feito uso dela
para saberem os dias mais propícios para as batalhas. Até os imperadores chineses
recorriam aos astros para guiarem seus passos no governo. Com esse currículo
respeitável, é inadmissível que ainda não a considerem uma ciência."
2. "É claro que existem duendes, as lendas sobre eles têm séculos e séculos
de existência."
3. "Nosso livro sagrado têm mais de 3 mil anos de idade e está intacto,
logo só ele pode conter a verdadeira revelação divina."
4. "Os primeiros mártires costumavam fazer ou acreditar nisso. Então deve
ser bom."
5. "Essas práticas remontam aos primeiros séculos da nossa igreja. Como
você pode questioná-las?"
Familiar? Esse tipo de argumentação ignora que o fato de um grande número
de pessoas, durante muito tempo, crer que uma coisa é verdade não é motivo
para se continuar crendo. Por exemplo, a escravidão era considerada justificável
em inúmeras nações durante milênios, e nem por isso, hoje, temos que aceitá-la
como uma prática legítima.
O oposto dessa falácia é o...
Apelo à novidade:
Como o próprio nome diz, a idéia de que tudo que é novo é bom. Extremamente
comum em anúncios publicitários:
1. "Saiu o novo modelo X68000. Com um design moderno, arrojado, perfeito
para você, sintonizado com o futuro."
Note que o enunciado não fala de vantagens técnicas ou maior funcionalidade:
o argumento para comprar é a mera novidade. E isso, como usuários experientes
de Windows bem sabem, nem sempre representa uma vantagem real.
Apelo à autoridade:
Quando queremos reforçar nossa tese, podemos recorrer à opinião de pessoas
respeitáveis para corroborá-la. Assim, por exemplo, se quero defender o uso
de uma determinada substância no tratamento de uma doença, poderei citar médicos
renomados e idôneos, desde que eles tenham experiência no combate a essa enfermidade
e que tenham testado a eficácia da substância em questão. Isso é perfeitamente
válido, e até desejável. No entanto, nem sempre se tem esse cuidado na seleção
de citações, e acabamos por citar quaisquer personalidades célebres como se
tivessem mais autoridade que qualquer outro mortal em questões em que não
são especialistas. Ser famoso não quer dizer estar certo sobre tudo. Por exemplo:
1. Dionne Warwick é uma boa cantora, mas isso não significa que o serviço
esotérico por telefone para o qual ela faz propaganda realmente funcione e
seja a solução de todos os problemas da vida.
2. O mesmo vale para Mayara Magri e o Instituto Omar Cardoso, bem como
para todos os anúncios publicitários envolvendo celebridades do show-business.
Da mesma maneira, principalmente ao se tratar de assuntos polêmicos, fazer
citações breves de especialistas famosos, ainda que afins com a questão em
pauta, não significa necessariamente que eles estão defendendo a tese em questão
ou concordando com todos os pontos que a compõem. Depoimentos de somente uma
ou duas frases aparentemente favoráveis em geral não nos permitem ter uma
idéia clara de até que ponto aquele suposto especialista se aprofundou no
assunto e do contexto em que aquelas palavras foram ditas. Para termos uma
maior segurança nesse ponto, ao nos depararmos com o depoimento dessas autoridades,
é melhor que eles sejam suficientemente detalhados para que possamos ter certeza
de que eles sabiam do que estavam falando e das razões pelas quais são favoráveis
ou não a uma determinada idéia. O bom senso exige que, antes de nos curvarmos
a títulos e fama, procuremos saber que argumentos estão sendo usados e se
eles realmente merecem crédito. Afinal, mesmo os sábios têm suas falhas e
equívocos.
Apelo à misericórdia:
É uma modalidade de apelo emocional: "Fulano tem razão, ou não deve ser
contestado, por estar sofrendo ou numa posição que o torna digno de pena."
1. "Como você se atreve a dizer ao Joaquim que não há vida após a morte?
Ele é viúvo!"
2. "É claro que Suzana von Richtoffen não teve nada a ver com a morte dos
pais! Você não viu como ela chorou no enterro?"
3. "Eu consegui superar meu vício em drogas graças à minha fé. Nos momentos
em que o impulso era mais forte, eu orava a Jesus e assim me mantive afastado
do vício. E agora você ousa me dizer que ele não é Deus?"
A simpatia pela situação de alguém certamente deve ser considerada na nossa
decisão de começar ou não um debate. Pode não ser nada conveniente começar
uma discussão com o autor da terceira frase, por exemplo, se não tivermos
nada melhor para lhe oferecer a título de apoio psicológico e a alternativa
à crença que consideramos equivocada, naquele momento, for uma pessoa esclarecida
mas toxicômana. Cada caso é um caso. Mas é sempre bom ter em mente que ser
digno de compaixão é uma coisa, ter razão é outra.
Eufemismos:
São palavras que designam coisas potencialmente desagradáveis de forma mais
suave. Usadas até não mais poder por políticos e religiosos, são uma forma
polida e ilusória de tornar belo o feio, e fazer com que mesmo as idéias mais
repugnantes se tornem mais aceitáveis. Seu apogeu está no uso de expressões
consideradas politicamente corretas, tão populares nos Estados Unidos,
e que chegam a ser ridículas:
1.Indivíduo verticalmente desafiado - anão.
2. Homem afro-americano - homem negro (e por que não nipo-americano,
sino-americano, teuto-americano?).
Já outros são mais universais e menos risíveis:
3. Apropriar-se ilicitamente de dinheiro público - roubar dinheiro
público.
4. Ser convidado a retirar-se do recinto - ser expulso do recinto.
No âmbito propriamente religioso, os aspectos potencialmente chocantes de
um credo podem ser atenuados também pelo uso de eufemismos:
5. Ser afastado da presença de Deus - ser torturado em chamas por toda
a eternidade, exterminado da existência, ou qualquer coisa terrível demais
para ser dita a um potencial convertido.
Eufemismos normalmente são dispensáveis, só tendo alguma utilidade quando
se quer evitar ferir a suscetibilidade de alguém, que, no caso do politicamente
correto, é exagerada. Um bom argumento deve ser claro, conciso e de preferência
sem eufemismos que possam atrapalhar a comunicação. Se eles são usados com
muita freqüência, pode ser o caso de que nosso interlocutor esteja tentando
minimizar ou disfarçar alguma coisa.
Premissas contraditórias:
Quando as bases do argumento são mutuamente excludentes. Por exemplo:
1.
O que acontece quando uma força irresistível encontra um obstáculo irremovível?
Ora, o erro aqui é que não existe força irresistível. Se existisse, então
não haveria um obstáculo irremovível, e vice-versa. Logo, se a pergunta não
é coerente consigo mesma, não pode haver resposta.
2.
Se Deus pode tudo, ele poderia fazer uma pedra tão pesada que nem ele
mesmo pudesse levantar?
Novamente a pergunta não faz sentido, pois admitir que Deus pode criar tal
pedra é admitir também que ele não pode tudo; e admitir que ele não pode criar
a pedra é o mesmo que negar sua onipotência. Então, não se tem aí nenhum fundamento
que possa dar margem a um raciocínio legítimo.
Mais um exemplo, desta vez peculiar às religiões salvacionistas, em especial
as cristãs:
3.
"Deus é o criador onisciente de todas as coisas. Então ele também criou
o mal? Não, o mal é criação das suas criaturas."
Vejamos: se Deus é o criador de tudo, e ainda por cima onisciente (ou seja,
sabedor de tudo, mesmo do futuro), como se pode dizer que o mal não é também
criação dele? Tal como estão, as afirmações se contradizem, pois mesmo que
Deus não tenha criado o mal diretamente, se ele é onisciente e cria os seres
já sabendo que praticarão atos maus, o máximo que se pode dizer é que ele
é seu criador indireto . A própria idéia de ser a origem de tudo que existe
implica não só ser criador daquilo que consideramos bom como também do que
consideramos mau. Mas se o mal foi criado a despeito da vontade ou do conhecimento
de Deus, o que faz mais sentido, então ele não seria onipotente.
E aí teríamos mais uma contradição. Para uma abordagem mais aprofundada desse
problema, sugerimos o texto
O Problema
do Mal, de Mike Hardie, neste mesmo site.
Questão complexa ou pergunta capciosa:
Também chamada de falácia da interrogação, é um truque muito usado
por advogados. Consiste em fazer uma pergunta que tem como pressuposto outra
que não foi respondida. Um exemplo clássico:
1. "Você já parou de bater em sua mulher?"
Qualquer que seja a resposta, o inquirido estará admitindo que de fato já
bateu, ou ainda bate, em sua mulher. O que torna a pergunta maliciosa é que
ela é sobre um assunto que não está sendo tratado e feita à queima-roupa,
com vistas a desqualificar o interlocutor diante da audiência. Dependendo
do contexto, a própria surpresa do inquirido com a pergunta e a conseqüente
demora numa reposta coerente podem depor contra ele.
Políticos também usam essa falácia à farta, especialmente quando fazem oposição
a alguma coisa. Por exemplo:
2. "Até quando vamos aceitar a intromissão dos EUA em nossos assuntos?"
Ou seja, deduz-se da frase que:
a) Os EUA estão se intrometendo no assunto em pauta;
b) Os EUA estão sempre se intrometendo em nossos assuntos. O efeito disso
sobre uma audiência ingênua será levar a uma reação contra essa intromissão
genérica dos EUA, reação essa que o político tentará canalizar a seu favor.
Note-se que não se está considerando que intromissão é essa, nem as circunstâncias
em que ocorrem ou suas conseqüências; apenas se apela para ela para justificar
uma certa postura num assunto específico. O erro está em se usar um pressuposto
que não foi demonstrado nem discutido para induzir a uma postura motivada
pela emoção, sem outros argumentos.
No campo religioso, um exemplo típico é:
2. "Você já aceitou Deus na sua vida?"
Note que a pergunta não explica o que se entende por Deus e induz a uma resposta
"Sim" ou "Não". Como a maioria das pessoas responde com um "Sim", abrem a
guarda para uma argumentação do tipo, "Você já se perguntou o que ele quer
de você?", que vai introduzir então a doutrina revelada do pregador. Se este
for minimamente habilidoso, vai enredar a pessoa com outras perguntas do mesmo
tipo, levando-a a outras respostas afirmativas num curto espaço de tempo,
até que ela mesma veja ali uma "lógica" muito convincente. Afinal, ela disse
"Sim" a tudo, não disse? Quando finalmente tiver tempo de considerar os detalhes
ou respostas mais elaboradas, possivelmente já terá aceito um estudo bíblico,
uma visita à igreja ou qualquer outro tipo de compromisso com o proselitista.
Redução ao absurdo:
É um raciocínio levado indevidamente ao extremo. Designado apropriadamente
em inglês pela expressão "slippery slope", ou seja, rampa escorregadia, na
qual um simples empurrão basta para que se perca totalmente o controle. Essa
falácia pode ser expressa assim:
1.
"Você permite que seu filho de seis anos roube um beijo na bochecha
da coleguinha de escola hoje e logo ele vai querer agarrá-la e, mais tarde,
se tornará um maníaco sexual. Você não tem vergonha?"
Ou seja, quem faz uso dessa falácia parte do princípio de que um evento qualquer
vai
necessariamente levar a outro sem qualquer possibilidade de gradação
ou razão aparente, como numa bola de neve montanha abaixo. É uma mistura de
generalização apressada com um determinismo pessimista, pois só reconhece
uma cadeia de eventos possíveis a partir de um fato. No exemplo citado, pode
até ser que o menino tenha alguma tendência problemática, mas certamente não
terá sido o beijo na coleguinha o fator responsável por isso e de uma criança
que dá um beijo na bochecha aos seis anos até o adulto sexualmente perturbado
vai uma boa distância. A falácia relaciona o beijo ao comportamento doentio
sem qualquer motivo aparente, ignorando todos os graus entre uma coisa e outra.
Mais alguns exemplos:
2.
"Se você permite o aborto em casos de risco de vida para a mãe nos hospitais
públicos, logo todo o mundo vai querer abortar por qualquer motivo, ninguém
mais vai valorizar a gravidez e a taxa de natalidade vai acabar despencando,
prejudicando a economia do país."
3.
"A crença na vida após a morte é perniciosa, pois quem acredita nisso
sempre vai achar que as coisas vão melhorar no Além e, portanto, vai se acomodar
à sua situação atual, não lutar por seus direitos e permanecer em tamanha
inatividade que a nação logo vai estar subjugada pelos exploradores internacionais.
É por isso que nosso país seria muito melhor se todos fossem ateus."
Agora alguns só aparentemente mais aceitáveis:
3.
"Se deixarmos o governo vender uma estatal hoje, daqui a dois ou três
anos o país inteiro vai estar nas mãos do empresariado internacional."
5.
"Não podem censurar meu livro. Eles começam censurando só o meu e logo
vão estar
queimando todos os livros em praça pública e voltaremos ao tempo da Inquisição!"
6.
"Se eu fizer uma exceção para você vou ter de fazer para todo o mundo."
7.
"Se você cumprimentar aquele seu amigo que abandonou nossa igreja, ele
vai encher sua cabeça de mentiras, você vai perder a fé e vamos ter de tratar
você como um traidor também."
(cf. Apelo ao medo ou argumento
ad baculum e Ataque pessoal ou argumento
ad hominem, acima).
PARA SABER MAIS:
A Internet é rica de material sobre lógica e argumentação. Aqui apresentamos
duas sugestões para o aprofundamento do estudo de falácias:
Guia de Falácias
Lógicas do Stephen, de Stephen Downes.
Lógica e Falácias, de Matthew.
Nota:
1 - Comunicação em prosa moderna. 7. ed. rev. Rio de Janeiro: Fundação
Getúlio Vargas, 1978, p. 307.