Isto é uma análise discursiva do programa de televisão Os Smurfs, criado por Peyo,
e transmitido durante os anos oitenta.
Em outras palavras, é uma análise de alguns temas sócio-políticos que eu notei
no desenho.
Os Smurfs é um programa único.
É, antes de tudo, um desenho animado, e como tal é dirigido às crianças.
A conversa poderia acabar aqui, porém, diferente de muitos outros desenhos, e
até de outros tipos de programas, Os Smurfs é sobre toda uma sociedade e suas
interações com eles mesmos e com forasteiros, ao invés de aventuras de somente
alguns personagens.
Eu acredito realmente que é, em resumo, uma fábula política, assim como O Leão,
a Feiticeira e o Guarda-roupa era uma fábula sobre o Cristianismo.
Ao invés de Cristianismo, entretanto, Os Smurfs é sobre o Marxismo.
Eu não estou acusando Os Smurfs de ser alguma espécie de propaganda de subversão
infantil - embora se fosse, realmente seria tão pior que os desenhos animados
da mesma década que só existiram para vender brinquedos de plástico?
De qualquer forma, este ensaio deve ser visto como uma espécie de alto elogio.
Que outro desenho mostraria o Marxismo, bem no ápice da história da Guerra Fria?
Os Smurfs deve ser elogiado por usar a metáfora e o artifício do conto de fada
para introduzir crianças a temas políticos.
Se Peyo era um socialista, entretanto, ele obviamente não era o tipo que teve
muito tempo para a versão praticada pela União Soviética e por outros blocos.
Ele era um utopista.
Há uma falta distinta de qualquer espécie de exército ou de polícia na Vila dos
Smurfs.
Em ocasiões raras, quando é necessário, formam a própria milícia civil e lutam
contra ameaças.
Contrariamente, é o absoluto oposto do estado policiado.
Depois de minha breve análise do Marxismo nos Smurfs, eu também estarei mostrando
os tópicos de feminismo e homosexualidade no desenho.
Mas o interesse principal deste ensaio é argumentar que Os Smurfs era uma fábula
Marxista.
2) A Vila de Smurf como uma Utopia Marxista:
A Vila Smurf é um modelo perfeito de comunidade socialista.
É auto-suficiente e a terra não é possuída por indivíduos, mas pelo inteiro coletivo
de todo os Smurfs.
Papai Smurf representa Karl Marx.
Ele não é só o líder dos Smurfs, é um semelhante honrado pelos outros por sua
idade e sabedoria.
Ele tem uma barba, como a de Marx, e assim concebivelmente poderia ser uma caricatura
também.
E por último, usa vermelho, que é a cor tradicional de socialismo.
Gênio poderia representar Trotsky.
É o único na vila com um intelecto que se aproxima ao de Papai Smurf - é um pensador.
Com seus óculos redondos, ele também poderia ser uma caricatura de Trotsky.
Ele freqüentemente é isolado, zombado ou regularmente expulso da comunidade por
suas idéias.
E naturalmente, Trotsky foi banido da USSR.
Apesar de suas profissões/distinções diferentes, Os Smurfs são completamente iguais.
Assim, enquanto as ocupações de certos Smurfs, tais como Fazendeiro, Ajudante
e Empenhado são mais importantes que outras, tais como Desajeitado, Aborrecido
ou Preguiçoso, não há nenhum sentimento de que certos Smurfs são superiores ou
inferiores a outros por causa de seu trabalho ou nível de habilidade, porque finalmente,
todo mundo é um Smurf em primeiro lugar.
Economicamente, a Vila Smurf é um mercado fechado.
Não há dinheiro, e todas posses são comunais - propriedade do coletivo.
Todo o mundo é igualmente um trabalhador e um proprietário.
Os Smurfs rejeitam a idéia de uma economia de mercado livre, com suas avarezas
e injustiças, e o coletivo é mais importante e valioso que o indivíduo.
O total é maior que a soma de suas partes.
John Lennon disse-nos ´imagine no possessions`.
A Vila Smurf alcança essa meta.
Aliás, muitas das idéias expressadas nessa canção são realidade na Vila.
Há um grande pedaço de capital, ou meios produzidos de produção na Vila Smurf:
a represa.
Ela é possuída, operada e reparada por todo o coletivo.
Todos Smurfs se referem um ao outro pelo mesmo título; "Smurf".
Ex: Smurf Gênio, Smurf Ajudante, Smurf Jokey, Smurf Preguiçoso, Papai Smurf.
Isto é altamente reminescente de estados socialistas fazendo uso da palavra 'camarada'
quando se refere a outros, em vez de títulos mais elitistas.
Somado à idéia de igualdade completa na Vila, a maioria dos Smurfs usa a mesma
cor e tipo de roupas.
É um uniforme padrão de trabalho, e com os bonés distintos e pele azul, mostram
traços do assim chamado Terno de Mao, comum na China Maoísta.
Na tradição do Marxismo puro, a Vila Smurf é ateísta.
Não há nenhum deus, e não há nenhum Sacerdote Smurf ou Padre Smurf.
Existem apenas as forças "reais" naturais e físicas, e estas são representadas
metaforicamente pelos personagens de Mãe Natureza e Pai do Tempo.
Naturalmente, também há mágica praticada por Papai Smurf, Gargamel e outros, mas
é simplesmente outra ferramenta, algo que ocorre na natureza, que tem propriedades
físicas e pode ser feito com o certo "Know-how".
Isso não é, como em tantas religiões, um meio de entendimento do universo num
contexto sobrenatural.
O episódio O Smurf Rei era a ilustração final do conflito Marxiano entre a espécie
opressiva e má de governo, onde reis gananciosos (e capitalistas) exploravam a
população para o próprios fins; e o bom, elegante modelo político que Marx tinha
formulado.
No episódio, uma milícia é formada para derrotar Gênio, que tornou-se Rei na ausência
do Papai Smurf, e a ordem utopista é restaurada quando Papai Smurf retorna.
Neste exemplo, Papai Smurf, como o próprio Marx, representa a forma ideal do Marxismo.
O maldoso bruxo Gargamel representa o capitalismo.
Ele encorpora tudo o que há de mau no capitalismo.
Ele é ganancioso, cruel, e seu único interesse está com a própria gratificação
pessoal.
Ele é o que acontece quando o indivíduo se faz mais importante do que a sociedade
em que ele vive.
Não coincidentemente, ele é também um velho ermitão louco sem amigos.
O que Gargamel quer fazer com os Smurfs? Ele tem duas idéias.
A primeira é a de comê-los.
Isto não é muito comum, porque os Smurfs são pequenos e raros, e não faria tão
bem como comer por exemplo, um gamo.
É semelhante com a obsessão do Frajola em comer a refeição do tamanho de uma bola
de golfe que é o PiuPiu.
Há duas explicações.
A primeira é que metaforicamente, ele quer devorar o socialismo, como o Oeste
quis fazer com a USSR com seus satélites durante a Guerra Fria através de sua
tática de englobamento.
A segunda é que como puro capitalismo, ele deseja transformar tudo a sua volta
numa mercadoria - incluindo as pessoas.
A segunda coisa que Gargamel planeja fazer com os Smurfs uma vez que ele os pega
é transformá-los em ouro.
Como o supercapitalista máximo, ele mais é preocupado com sua própria riqueza
que com igualdade e justiça.
Como qualquer capitalista no estilo de Adam Smith, é seu estado 'natural' querer
o quanto dinheiro puder pegar.
Gargamel é um homem frio, amargo e completamente vazio.
Isto porque ele nada mais tem em sua vida além de uma missão desalmada de riqueza
e posses.
Uma declaração definitiva sobre os efeitos anti-sociais do racionalismo econômico.
O gato de Gargamel, Cruel, representa o trabalhador no estado rude de mercado
livre que é casa de Gargamel.
Ele não se queixa, ou, desde que ele não tem nenhum voz (ex.
As Uniões de negócio), é metaforicamenre incapaz de queixar-se.
Ele não pode negociar seu salário - come o que é dado pelo seu mestre.
Ele é menor e bem menos que Gargamel, e metaforicamente, ele representa o proletariado,
enquanto Gargamel representa a burguesia.
Cruel é explorado e oprimido.
Arrisca sua vida lutando e caçando para seu mestre, e não tem a capacidade intelectual
de questionar esta questão de interesses, exatamente como o trabalhador sofreu
seu destino durante séculos porque a educação era inalcançável a ele, e não havia
nenhuma outra opção a não ser trabalhar para seus chefes.
Gargamel possui sua casa e tudo o que há nela, incluindo o capital de seu equipamento
de alquimia, de maneira completamente oposta ao meio com que os Smurfs possuem
sua vila.
Se a mesma estrutura política existisse na casa de Gargamel, tanto ele como Cruel
seriam proprietários iguais, indiferentes do tamanho, conhecimentos e habilidades
superioriores de Gargamel.
Mas Cruel não possui nada.
A incursão de novos personagens mais tarde nos desenhos, tal como os Smurflings,
com suas cores e roupas diferentes, podem ser vistos no mundo real como uma incursão
por interesses comerciais para o aumento da popularidade.
No desenho, metaforicamente, eles representam a intrusão Ocidental à harmonia
da utópica Vila Smurf, assim como as reformas glasnost e perestroika de Gorbachev
no meio dos anos oitenta herdaram o final da União Soviética.
3) O feminismo e os Smurfs:
Monique Wittig escreveu que as mulheres são definidas como mulheres, enquanto
homens são definidos por sua ocupação, sendo que homens têm ocupações mas mulheres
não.
Por exemplo, se um acidente estiver sendo informado, as vítimas eram descritas
como 'um professor, um encanador e uma mulher'.
A Smurfette é única na vila e ela não é definida por uma ocupação nem uma característica
de personalidade como os Smurfs masculinos, reais, mas por seu sexo.
Ela não é realmente um membro da sociedade por causa de seu sexo, e isto é representado
metaforicamente no desenho pelo fato que ela foi criada por Gargamel.
O sufixo diminutivo de "ette", comum na nossa sociedade, também identifica que
Smurfette não era semelhante aos homens.
Ela é o segundo sexo.
Acima eu afirmei que todos na Vila eram iguais.
Num sentido, isto é ainda verdadeiro.
No começo, eram todos homens, e a introdução de Smurfette não rompeu a ordem patriarcal.
Entretanto, Smurfette é igual aos outros politicamente, mas não socialmente.
Num estado patriarcal "sexista" ideal , as mulheres não são uma parte da comunidade.
Elas não ocupam a 'esfera pública' do trabalho e do mundo exterior, e elas certamente
não trabalham.
A ocupação principal de Smurfette parece ser ficar a toa parecendo bonita, ex
'sendo mulher', embora quando se necessita resolver um problema, os produtores
não tiveram, agradecidamente, feito uma mulher sem cérebro.
Ela é um pouquinho mais esperta que o resto dos Smurfs, exceto, naturalmente,
pelo Papai Smurf.
Smurfette é definitivamente o 'objeto' do interesse masculino.
Sendo o objeto, os homens são as ações.
Eles são ativos, ela é passiva.
Smurfette não tem peitos.
Acredito que isto é significativo quando considerarmos como Smurfette foi criada.
Começou na vida quase como uma criação Frankensteiniana de Gargamel.
Como um capitalista, ele naturalmente está tratando ela como uma mercadoria, algo
que pode ser feito, usado e jogado fora, apenas para fazê-lo ganhar dinheiro.
A idéia de que uma mulher pode ser feita por um homem nega papel chave das mulheres
na procriação.
O fato de ela não ter peitos vai mais ainda a esta negação da natureza, uma tentativa
de controlar as mulheres, de fazê-las se adaptarem à norma social imposta pela
ordem patriarcal.
Smurfette é uma criação secundária, na qual foi feita depois dos homens.
Tem um coração de pedra, e tecnicamente, ela é artificial.
Fisicamente e metaforicamente, ela não é um smurf de verdade.
É, curta e grosseiramente, como as culturas patriarcais em resumo, viram as mulheres
durante séculos.
Como se faz uma mulher melhor?
Em outras palavras como se faz uma mulher aceitável pela sociedade (ex.
a Vila ou sua própria sociedade)?
Primeiro, tire toda a força de luta dela.
Faça ela submissa, faça de seu dedo a linha criada e mantida pela estrutura social
masculina-dominadora.
Um exemplo visual disso é sua transformação de morena para loira.
A sociedade ocidental tradicionalmente estereotipa mulheres de cabelo escuro como
espertas, e as loiras como burras, mas mais lindas e desejáveis.
E isso é outro meio de se fazer uma mulher melhor.
Faz-se ela linda.
Essencialmente, quando Papai Smurf lança seu feitiço para fazer de Smurfette um
Smurf de verdadeiro, a visível diferença era que ela era mais 'linda' também.
Isso significa que antes ela era feia.
Então quando se trata de mulheres, feio significa errado e lindo significa certo,
e num certo sentido, real.
Mas por quê uma coisa é linda e outra não? Quem disse? A ordem de patriarcal.
E a Vila Smurf, com sua relação de 99:1 de homens para mulheres, é definitivamente
um patriarquia.
Isto adiciona a idéia da mulher como mercadoria - é mudada e é feita por homens,
e é linda pelos seus padrões.
E no final de tudo ela é grata.
Gloria Steinem uma vez escreveu que 'as mulheres foram as primeiras Drag Queens
da história', querendo dizer que os ideais da beleza são todos impostos pela ordem
patriarcal, e que não há nenhuma razão para mulheres parecerem 'com mulheres'
além de uma necessidade para a distinção entre os sexos, e para reforçar a idéia
de que mulheres são meros objetos, foco da atenção masculina.
A Smurfette não é uma exceção.
Numa sociedade patriarcal ideal, não há nenhuma mulher.
Você poderia imaginar o que seria da Vila Smurf se a relação de homens para mulheres
fosse 50:50?
Uma coisa é certa, não seria a mesma utopia que é apresentada no desenho.
Talvez isso signifique que o estado Marxista ideal só pode funcionar realmente
quando todo mundo é igual, inclusive sexualmente, embora é quase impossível imaginar
uma Vila toda feminina de Smurfs.
Isto é provavelmente mais devido à uma sexualidade intrínseca no fundo de nossa
própria sociedade do que qualquer outra razão.
Se o feminino fosse o sexo 'natural' dos Smurfs, eu não conseguiria ver por quê
eles iriam todos se parecerem com Smurfette.
O conceito de beleza, se existiu, não teria nenhuma base, nenhuma referência com
que ser comparada com 'loira e graciosa'.
4) A Vila de Smurf como Homotopia:
A Vila Smurf sempre foi toda masculina, até que Smurfette apareceu.
Isto significa que eles não procriavam por meios tradicionais, e assim, 'heterosexualidade'
não seria a norma.
Como as antigas cidades-estados Gregas tal como Atenas, a qual muitos acreditam
ser a democracia mais pura que o mundo jamais viu, o governo era de todo o povo,
e por 'todo o povo' significa apenas os homens.
As mulheres não eram convidadas a participar dos negócios públicos.
Em Atenas, homossexualidade não era incomum, nem era ela particularmente escondida.
Nenhum Smurf forma um relacionamento com Smurfette.
Embora ela seja o foco de algumas rivalidades infantis heterossexuais, especialmente
entre Pesado e Ajudante, nunca há qualquer tensão heterossexual real na Vila.
A maior tensão é entre Pesado e Ajudante, que parecem estar mais interessados
em se impressionarem do que impressionarem Smurfette.
Se a Vila Smurf existiu por anos sem qualquer fêmea, como os Smurfs teriam sido
capaz a entender o que a Smurfette era?
Certamente, a natureza proporcionaria exemplos de masculino-femininos que os Smurfs
teriam sido capazes de observar, mas em sua própria esfera, nunca haviam quaisquer
mulheres, e nunca qualquer heterosexualidade.
Assim, como Smurfette podia ter sido capaz de seduzir alguém?
Estão os criadores tentando dizer que heterosexualidade é o estado natural, mesmo
nunca tendo existido na sociedade e nem tendo nenhuma referência para se entender
o que atração heterossexual era?
Neste ponto, tenho de deixar os criadores de fora.
Eles provavelmente nem iriam pensar sobre isso, porque na nossa sociedade, heterosexualidade
é vista como a norma.
Ultimamente, acredito que personagens como Vaidoso, Ajudante e Pesado são arquétipos
gays.
Vaidoso é a espécie de arquétipo gay normalmente apresentada pela indústria de
entretenimento, enquanto Pesado e Ajudante são arquétipos gays como o Village
People, com sua extrema masculinidade iconizada.
Também acredito que Gênio e Desajeitado representam o estereótipo de um casal
gay. 5) A conclusão:
Acredito que Peyo no mínimo estava tentando apresentar certas teorias Marxistas
presentes na forma de um conto de fada alegórico.
Os Smurfs, então, prosperaram na melhor maneira que o melhor da literatura de
fantasia faz - por brilhar uma luz no mundo real em que todos vivemos.
Há muita evidência a sugerir que os Smurfs, como uma narrativa, é uma fábula socialista
utopista.
E finalmente, penso que uma grande parte do apelo do desenho vem deste ideal utopista,
porque mesmo se não acontecer mundo real, com todas suas complexidades, nós ainda
podemos imaginar.