Resgate Às Avessas
Revista: Carta
Capital
Autor : Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
Data : 21/08/2002
Caderno: Seu País / Operação Bumerangue
Fonte : http://cartacapital.terra.com.br/site/antigo/203/destaque.htm
Os endereços
dos reais beneficiários do programa de US$ 30 bilhões ficam em Nova York e
Washington.
"Tenho um mau pressentimento sobre isso."
Bordão repetido pelos heróis de Star Wars quando apanhados nas mais espantosas
armadilhas - e por Krugman, ao saber do pacote.
Não foi só o economista norte-americano Paul Krugman a suspeitar de que o
único propósito do dinheiro do Fundo Monetário Internacional (FMI) é socorrer
bancos norte-americanos e persuadi-los a contribuir para perpetuar a equipe
de Bush no poder.
Se a falência da Nova Economia está saindo muito cara ao sistema financeiro
dos EUA, enfrentá-la simultaneamente com uma moratória do Brasil poderia ser
mais do que um desafio.
No ano passado, faliram 257 sociedades anônimas norte-americanas (incluindo
a Enron), com passivos num total de US$ 258,6 bilhões, um recorde. Até o início
deste mês de agosto, outras 129 (incluindo WorldCom e US Airways) foram pelo
ralo, devendo mais US$ 267,6 bilhões. Total: US$ 526,2 bilhões - e a quebradeira
ainda não terminou.
A Argentina pendurou outros US$ 132 bilhões em dívidas. Se o Brasil, que deve
US$ 220 bilhões, também declarasse uma moratória - possivelmente arrastando
outros países latino-americanos -, os problemas do setor bancário norte-americano
praticamente dobrariam de uma só vez. O mico totalizaria US$ 961,8 bilhões.
Para alguns bancos particularmente importantes, o impacto seria considerável.
O FleetBoston perdeu US$ 1,1 bilhão na Argentina e 40% de sua capitalização
desde o início do ano. Até março deste ano, tinha US$ 10,3 bilhões no Brasil,
de onde tirava 5% do seu lucro. De 5 a 9 de agosto, suas ações subiram 22,2%
com o anúncio do pacote brasileiro, recuperando US$ 4,6 bilhões em valor de
mercado.
[HORA DE FUGIR. O FleetBoston e o Citigroup ainda têm US$ 20 bilhões
para tirar do Brasil]
O Citigroup perdeu US$ 816 milhões na Argentina. Contava 3% do seu
lucro no Brasil, onde tinha US$ 11,4 bilhões emprestados até março. Nos três
meses seguintes, deixou de emprestar e resgatou o que pôde, mas ainda ficou
com US$ 9,3 bilhões. No fim de julho, valia menos de US$ 150 bilhões, 40%
menos que em março. Suas ações se recuperaram 19,8% e acrescentaram US$ 29
bilhões ao seu valor de mercado.
De junho do ano passado até junho deste ano, o JP Morgan Chase reduziu seus
empréstimos para o Brasil em 25%, mas ainda ficaram US$ 2,1 bilhões. Subiu
17,9% com o acordo, ou US$ 8 bilhões. O Bank of America, com US$ 1,8 bilhão,
e que também deixou de emprestar ao Brasil nas últimas semanas, recuperou-se
10,9% ou US$ 10,2 bilhões.
Nada mal para uma aposta de US$ 30 bilhões, da qual apenas 18% (correspondentes
à cota dos EUA no FMI) saíram de cofres norte-americanos. Se funcionar, os
grandes bancos terão um ano e meio para repassar ao FMI sua parte do pepino
verde-amarelo.
Se os bancos estrangeiros se recusam a financiar e a renovar os empréstimos
que estão vencendo (pelo menos US$ 32 bilhões neste ano e US$ 26 bilhões no
ano que vem), as empresas e o governo brasileiro podem ter dificuldade para
pagá-los, pois seu limitado suprimento de dólares - basicamente exportações
e investimento direto externo - mal basta para pagar as importações, juros
da dívida, dividendos de transnacionais e outros serviços. Daí o risco de
suspensão do pagamento, ou moratória.
O que o FMI oferece é dinheiro, até o limite de US$ 20 bilhões (US$
6 bilhões neste ano e US$ 14 bilhões em 2003), para cobrir parte dos vencimentos
dessas dívidas. Ou seja, para o Brasil trocar dívidas com bancos privados
por dívidas com o FMI. Os outros US$ 10 bilhões do acordo são mera rolagem
de empréstimo do próprio Fundo, já existente, que também autorizou o Banco
Central do Brasil a reduzir as reservas em mais US$ 10 bilhões para atender
à demanda do mercado de câmbio. Ou seja, permitir aos bancos e investidores
privados resgatar aplicações e empréstimos de curto prazo e convertê-los em
dólares. Como isso também faz parte da dívida, ela pode até diminuir um pouco.
Não chega a ser um consolo, pois os cofres do País ficarão limpos.
Isso não melhora, porém, as chances de os bônus de longo prazo - aqueles cuja
rejeição faz subir o risco Brasil - serem resgatados. A capacidade de pagamento
do País em 2010 ou 2040 ficou ainda mais duvidosa.
Em artigo na Folha de S.Paulo do domingo 11, o analista Walter Molano, da
BCP Securities, deixou claro: o pacote é uma vitória para os bancos, para
a Casa Branca e para FHC, mas uma derrota para o próximo presidente.
- A probabilidade de moratória brasileira é maior agora do que no passado.
É hora de sair da festa. Aproveite a oportunidade criada pela demanda por
papéis brasileiros e procure a saída mais próxima.
No dia seguinte, a agência Moody's rebaixou a classificação da dívida externa
brasileira. Explicou que não importa qual candidato vai vencer: mesmo que
a situação seja estabilizada a curto prazo, o próximo governo terá dificuldades
em sustentar a natureza "opressiva e condicional" do programa do FMI.
[PACOTE RÍGIDO. "Tenho um mau pressentimento sobre isso",
pensou Krugman, como Han Solo antes de ser, por assim dizer, engessado pelo
Império]
A questão está nas condições impostas ao Brasil. Dizer que a economia
vai ficar engessada é até eufemismo. E essa meta rígida, praticamente inviável
e provavelmente inútil de superávit primário de 3,75% até 2005 é, na visão
do Fundo, apenas um mínimo. Seu comunicado informa que o patamar será revisado
a cada trimestre, mas nunca para menos que a meta atual.
Conta o jornalista Marcio Aith, na Folha, que o Fundo desejava começar com
uma meta ainda mais elevada. Fez uma concessão para superar o impasse criado
pela resistência do PT, que não fez parte das negociações, mas relatou suas
condições ao governo.
Diz o economista Raul Velloso, porém, que, dada a prevista redução da CPMF
e da alíquota máxima do IR, o próximo governo só conseguirá cumprir a meta
de 3,75% - que o governo FHC só começou a perseguir em julho deste ano - se
o crescimento do PIB em 2003 for de, pelo menos, 4,8% - o dobro da média de
crescimento dos oito anos de tucanato. Mais do que os candidatos, em plena
campanha, ousam prometer.
Mesmo que o próximo presidente imponha a manutenção desses tributos e cumpra
as metas ao gosto das missões trimestrais do FMI, o problema não estará resolvido.
Como lembra o financista George Soros, um superávit primário de 3,75% só estabiliza
a relação entre dívida e PIB se as taxas de juros reais ficarem limitadas
a 10%.
Isso se a economia crescer 4% ao ano. Sem crescimento, a taxa máxima seria
6%. E, na realidade, as taxas de juros reais estão perto de 20%. Para pagá-las,
o superávit primário teria de ser 4,8% e a economia, crescer 4% ao ano - obviamente
impossível, reconhece Soros.
"O Brasil precisa crescer entre 3,5% e 4% no ano que vem. Menos que isso implique
reestruturação da dívida", diz o economista Barry Eichengreen, consultor do
FMI durante a crise asiática.
Crescer atendendo às condições do FMI? Ainda mais com os mercados agitados
pelos escândalos financeiros dos EUA e sua promessa de invadir o Iraque?
De janeiro até 9 de agosto, segundo o Banco Central, a média das projeções
do mercado para o crescimento do PIB em 2002 caiu de 2,44% para 1,83%; a projeção
para 2003, de 3,5% para 3,4%.
[HENRIQUE IV E BUSH. Ambos decidiram retocar sua ideologia para garantir
o poder]
Essas contradições talvez expliquem o estranho destino desse programa.
Nunca os pacotes do FMI foram armados em tão pouco tempo. Nunca foram tão
grandes. Nunca foram recebidos com tanta fanfarra. E nunca tiveram efeitos
tão efêmeros.
Dois dias depois do anúncio do acordo, alguns veículos ainda se esmeravam
no ufanismo: na sexta 9, a manchete do Estado de S. Paulo foi: "Acordo causa
euforia no Brasil e no mundo"; segundo O Globo, "Bolsas internacionais sobem
ao ritmo de samba".
De fato, a Bolsa de Nova York havia subido 8,9% desde o dia 5, recuperando
US$ 897 bilhões em capitalização. Pode ser exagero atribuir tudo isso ao acordo
com o Brasil, mas ao menos os executivos dos quatro grandes bancos credores
que ganharam uma oportunidade de evitar perdas de até US$ 23,5 bilhões e seus
acionistas (que recuperaram US$ 51,8 bilhões) tinham, de fato, motivos para
sair sambando pela Wall Street.
Mas o carnaval não chegou à Quarta-Feira de Cinzas. No mesmo dia, a agência
Morgan Stanley rebaixou as perspectivas do câmbio brasileiro e ficou evidente
que os bancos estrangeiros não cogitavam reabrir suas linhas de crédito para
o País. Nesse mesmo dia, câmbio e risco Brasil voltaram a disparar.
Também na manhã da fatídica sexta-feira 9, o economista norte-americano Paul
Krugman já havia divulgado seus maus pressentimentos em artigo publicado:
"Há certas dúvidas sobre quem, exatamente, está sendo beneficiado por essa
ajuda financeira".
Para explicar, Krugman citou o economista Paul Erdman, tão desastrado ao elogiar
as autoridades de Washington quanto o secretário do Tesouro, Paul O'Neill,
ao criticar as da América Latina.
No site CBS Market Watch, Erdman esclareceu que a "ajuda" quer dizer, antes
de mais nada, que Bush voltou a fazer pressão para concretizar a Área de Livre
Comércio das Américas (Alca) antes do fim de seu segundo mandato.
Além disso, enfatiza Erdman, "o fato de que isso também dá um grande
impulso ao Citigroup e ao FleetBoston dificilmente deixará de ser lembrado
na hora de levantar fundos de campanha entre a elite de Wall Street", que
não deixará de mostrar sua gratidão a Bush e seu partido nas eleições de novembro
e, provavelmente, também nas de 2004. Para O'Neill, deve ser reconfortante
ver o dinheiro dos seus encanadores ir para a campanha do Partido Republicano
e não para contas suíças dos poderosos do Cone Sul.
Quanto a Krugman, confessa estar perdendo a fé que tinha em boa parte do Consenso
de Washington:
- É preciso simpatizar com os líderes políticos latino-americanos que querem
temperar o entusiasmo pelo livre mercado com mais esforços para proteger os
trabalhadores e os pobres.
É de se supor que, se a Argentina não conseguiu "socorro" semelhante, não
foi por sua política econômica ser pior que a do Brasil. Foi por ter quebrado
antes de se conhecer a dimensão dos problemas do mercado financeiro nos EUA
- e, talvez, também por não dever o suficiente para representar um risco tão
sério para os bancos mais poderosos.
"Paris bem vale uma missa", disse o protestante Henrique IV ao se converter
ao catolicismo para ser coroado rei da França. Washington também deve valer
um leve retoque na ideologia republicana, para a qual jamais se deveria intervir
no mercado para "socorrer" países do Terceiro Mundo.
Não, claro, que estejam dispostos a resolver o problema. Mais do que retoques,
isso exigiria uma reforma muito mais abrangente, não só do discurso, como
também do mercado financeiro e das instituições internacionais.