Propaganda Eleitoral

Jornal do Brasil.
by Nelson Hoineff.
Quanto mais vemos, menos sabemos. Em The More you Watch the Less You Know (Quanto mais você vê, menos você sabe), o produtor de TV e cineasta independente norte-americano Danny Schechter sustenta que uma cobertura de TV mais ampla não implica necessariamente uma cobertura de TV melhor. Pelo contrário, diz Schechter, é na disseminação de uma grande quantidade de informações que muitas vezes se perde a objetividade, que está na essência do bom jornalismo. O produtor cita um texto de Brecht de 1927. "Espero que inventem alguma coisa melhor ainda que o radio (...). As futuras gerações vão se impressionar ao ver como o planeta Terra é capaz de falar para todos e, ao mesmo tempo, perceber que o planeta Terra não tem nada a dizer". Brecht não viveu para ver a TV por satélite, e muito menos o horário eleitoral brasileiro. Ficaria igualmente impressionado com um e outro. Na televisão, a grande maioria dos candidatos ao Congresso brinda o espectador com um extraordinário show circense todos os dias, dando uma boa prévia do que será nos próximos anos o plenário onde se decidem os rumos do país. Os postulantes ao Executivo, por sua vez, usam o tempo, pelo qual tanto lutaram, para as acusações das quais todos nós estamos tão cansados, e para soluções narrativas menos originais ainda. Pessoalmente, ofereço meu voto para o primeiro candidato que não usar câmera lenta, closes de crianças e pôr-do-sol avermelhado em seus videoclipes. Essa baixaria estética é mais ofensiva para o espectador do que chamá-lo explicitamente de burro, como um dos candidatos preferiu fazer. Usando um tempo ganho de graça na TV sem ter o que dizer, é isto que todos os candidatos estão dizendo: já que você é suficientemente estúpido para que eu tente seduzi-lo com o olhar pedinte de uma criança em contraponto a criancinhas bem nutridas correndo em slow motion, então por quê não votar logo em mim e esperar para ver se fica com alguma migalha do meu governo? O problema talvez resida no fato de que o discurso dos candidatos na televisão não esteja sendo muito diferente do próprio discurso vigente na televisão. Não são apenas os candidatos que apelam para nauseabundos clichês estéticos, e de maneira alguma são eles os únicos a ocupar o tempo das emissoras e as freqüências públicas sem ter nada o que dizer. É bastante revelador o fato de que os programas eleitorais estejam em larga escala reproduzindo os modelos narrativos da própria televisão, criando programas à imagem de programas de TV que já existem, e até fórmulas interpretativas consagradas na dramaturgia, no humorismo e, o que é pior, no jornalismo de televisão. Vê-se então que não são apenas os programas eleitorais que estão muito ruins. É sua inspiração também. Conheci uma moça que um dia se deixou retratar por um caricaturista de rua. Vendo o resultado, reclamou: "Mas o meu nariz ficou muito feio!" Só diante do silêncio geral entendeu que o problema não estava no caricaturista.
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