Orientação Política
* INTRODUÇÃO
Se você começou a ler este texto é porque tem a intenção de saber um pouco
mais sobre política, votar melhor, conscientemente, e de alguma forma tentar
melhorar nossa sociedade.
Trataremos de algumas questões por tópicos, cujo objetivo não é influenciar
o leitor, mas sim, mostrar outro paradigma e, talvez, "abrir sua mente".
O objetivo não é falar bem ou mal de pessoas, apenas mostrar outros paradigmas.
O tempo aproximado de leitura do texto abaixo é de 20 minutos. Pode parecer
muito, mas considere que pode mudar para melhor 4 anos da sua vida, da minha
e de todos nós.
* NÃO GOSTO DE POLÍTICA
Muitas pessoas dizem com um certo orgulho que não gostam de política, e o
principal motivo é que "político é tudo ladrão". Daí surge uma pergunta:
Se você fosse político seria ladrão?
Se sua resposta for sim, não há do que reclamar então, pois ladrão que rouba
ladrão tem 100 anos de perdão.
Se sua resposta for não, então considere o fato de que é mais fácil falar
do que fazer, e se você está insatisfeito com nossos políticos, por quê então
você não vira um político honesto e vai fazer um trabalho melhor do que os
que aí estão?
Discutir política talvez não seja seu hobby, mas certamente é uma necessidade
que todos os cidadãos conscientes deveriam saber que têm, pois sem conhecimento
político, teremos um povo ignorante e facilmente manipulável; se você é mais
um que não gosta de política (e talvez fale isso com orgulho), é um sério
candidato a ignorante.
Se você trata a política com desprezo, como se não fosse contigo, como se
você e ela não tivessem nada a ver, imagine se de repente por causa desse
desgosto pela política você se visse numa prisão política em meio a uma ditadura.
Seu descaso seria o mesmo?
* A ORIGEM DOS ATUAIS PARTIDOS POLÍTICOS
Na ditadura militar que houve em nosso país até o início da década de 80,
haviam apenas dois partidos políticos: ARENA e MDB (Movimento Democrático
Brasileiro). A ARENA representava os interesses dos militares, então ditadores,
e o MDB representava a oposição à ditadura. Do MDB surgiram muitos exilados
políticos, pois a ditadura militar não aceitava oposição e todos aqueles que
questionavam a ditadura sofriam, de alguma forma, retaliação, seja pelo exílio,
tortura ou eliminação física.
Destas duas vertentes políticas, a ARENA deu origem a partidos considerados
"de direita" atualmente, como PPB e PFL, e o MDB deu origem a partidos considerados
"de esquerda" atualmente, como PMDB, PSDB, PT e PDT.
A ditadura militar foi extinta, o Brasil e outros países da América Latina
voltaram a ter um regime democrático, e um sistema político em que a liberdade
político-partidária era possível novamente. Democracia significa "governo
do povo", é o antônimo de ditadura, qualquer que seja sua espécie, ditadura
de direita ou de esquerda, ambas são anti-democráticas e, por mais que boa
parte da classe média tenha se favorecido nessa época, jamais deveremos aceitar
sermos governados por um regime ditatorial e nos calarmos.
Em resumo, os partidos cuja origem é a ARENA, representam interesses que,
desde sua origem, não são do povo ("demo"), pois apoiavam um sistema anti-democrático,
já os partidos cuja origem é o MDB deveriam, em teoria, representá-los. A
origem de um partido não conta sua história, mas faz parte dela, e quando
formos pra urna eleitoral isso deve ser levado em conta. Apoiar um partido
em cuja história há apoio à anti-democracia é correr o risco de apoiar políticos
que não governem pro povo, mas sim para interesses outros. Se você é uma pessoa
do povo, deveria pensar muito bem antes de votar num candidato de um partido
cuja história não é de luta pelo povo, mas se você é uma pessoa que faz parte
da seleta minoria de poderosos do Brasil, talvez já tenha escolhido seu candidato
há muito tempo, e saiba de cor o número de sua conta bancária no exterior.
É incrível o número de trabalhadores que necessitam da renda obtida ao final
de um mês de trabalho para sobreviver, que por pura ignorância política, votam
em candidatos que não representam seus interesses.
A vantagem do sistema democrático presidencialista é que os governantes são
eleitos através do voto direto, ou seja, para se eleger, um político deve,
necessariamente, ter um número representativo de votos, caso contrário, por
maior que seja sua fortuna e por mais influência que tenham aqueles a quem
ele representa, sem votos suficientes, ele não ganha. O que fazer então? O
político vem com um belo discurso, uma bela campanha de marketing, transmite
uma bela mensagem, tem uma imagem de homem bem apessoado, inteligente, culto,
lutador, honesto, do povo, gasta uma fortuna com campanha eleitoral e se elege.
Imagem não é nada... a história conta muito. Antes de votar, procure saber
em quem está votando, não se deixe iludir.
* MARKETING POLÍTICO
Numa ditadura não há liberdade de expressão, ou seja, a imprensa não pode
divulgar nada que seja contra o governo, sob risco de os responsáveis sumirem
do plano terrestre. A mídia expressa unicamente o que for de interesse do
governo, e esta é a forma encontrada para manter a maioria da população desinformada
sobre os crimes de estado, crimes contra os direitos humanos, assassinatos
e todas as formas desumanas de calar a oposição à ditadura. Isso aconteceu
no Brasil, na Rússia, na Alemanha, de direita ou esquerda, todas as ditaduras
foram responsáveis por muitas mortes e torturas.
Numa democracia a liberdade de expressão existe, no caso do Brasil está até
na Constituição. Para se eleger um candidato político pode usar os meios de
comunicação para expressar suas intenções, planos de governo, sua mensagem
e se apresentar ao eleitorado. A tristeza é que, infelizmente, quem faz a
cabeça do eleitor ignorante político, não é o candidato em si, mas a campanha
de marketing que está por trás do mesmo. Existem marketeiros profissionais
cuja especialidade é marketing político, os quais se baseiam em muita psicologia
e estatísticas para dirigir uma campanha política. Através de estudos profundos
sobre psicologia, é possível saber o que agrada e o que desagrada determinado
grupo de pessoas. Uma campanha bem elaborada envolve muito dinheiro, pois
não basta apresentar um candidato bem apessoado uma vez ao público, ele deverá
ser apresentado exaustivamente, martelado na cabeça dos eleitores até que
sua imagem se consolide na cabeça de todos e passe a ser lembrado constantemente
pelas características que a campanha associou àquele político. Se uma campanha
política não fosse um instrumento de persuasão, certamente os eleitores votariam
num candidato pelo seu valor como pessoa e político honesto e competente,
não pelas musiquinhas super bem feitas que ficam depois de muito tempo ainda
martelando em nossas cabeças, pelos inúmeros outdoors que vemos pelas ruas,
inúmeros cartazes colados aos postes e muros, inúmeros panfletos e santinhos
jogados na rua, brindes espalhados principalmente às pessoas mais carentes,
como bonés e camisetas, e no horário eleitoral gratuito, uma apresentação
linda, com vídeos que mostram pessoas simplíssimas, carentes de tudo, crianças,
idosos, alegres e sorridentes, como que se estivessem muito felizes por aquele
determinado político ter sido enviado à Terra para salvá-los. É tudo muito
bonito, chega até a nos dar uma motivação por dentro para simpatizar com aquele
candidato, mas é puro marketing político. Assim como existem campanhas publicitárias
extremamente bem feitas, cujo produto é lembrado sempre que vamos comprar
algo do gênero, existe a campanha política, cujo objetivo é nos fazer lembrar
do candidato, até o momento de irmos às urnas, como alguém que nos fará dar
aquele sorrisão lindo que nos fez simpatizar com ele na campanha da TV, durante
4 anos. Cigarro é associado à liberdade, Cerveja é associada à conquista de
mulheres bonitas, Carro é associado a poder e estilo, Refrigerante é associado
à juventude, Político é associado à felicidade, algo do tipo: vote tranqüilo
que esse candidato irá cuidar de você e te fazer muito feliz!
O ideal é que as campanhas políticas fossem restritas a apresentações no rádio
e TV, do começo ao fim o candidato falando, sem atores famosos, musiquinhas,
jinglles, vídeos, cenários, traillers, apenas o candidato dizendo quem ele
é e a que veio, sem outdoors e toda a engrenagem que está por trás de uma
campanha eleitoral. Daí sim poderíamos votar num candidato por simpatia a
ele ou às suas propostas, mas não seríamos influenciados inconscientemente
a votar num candidato por um complexo e bem elaborado plano de marketing político.
Imagine o número de pessoas que um vídeo com uma musiquinha no programa eleitoral
na TV, uma musiquinha tocando direto no rádio, milhares de outdoors espalhados
pelas ruas, um comercial pobre em conteúdo mas rico em mensagens do tipo "vote
nele e seja feliz" no horário nobre pode atingir num país como o Brasil!
Certamente tudo isto é muito caro, envolve muito dinheiro, mas deve valer
a pena, pois os candidatos que costumam ganhar as eleições são aqueles que
têm uma campanha eleitoral bem planejada e massiva, tendo por trás um excelente
marketeiro, não necessariamente os mais éticos e competentes. É uma pena que
o marketing possa eleger candidatos, quem deveria eleger o candidato é ele
próprio, sem marketing, mas como não é o que acontece, quando você vir todos
os recursos que poderiam influenciá-lo de alguma forma a simpatizar com um
candidato, lembre-se de que tudo foi baseado num estudo psicológico de como
influenciar as pessoas, e você é apenas mais uma que inconscientemente pode
acabar se iludindo e se convencendo por uma campanha bonita e massiva, repetitiva.
Não se deixe influenciar pelo marketing, vote pelo candidato e seu partido.
Planos de governo geralmente são muito semelhantes, geralmente são muito bons,
geralmente são bem intencionados, mas não adianta ter um bom plano de governo
se quem deverá executá-lo não tiver credibilidade, honestidade e competência
para fazê-lo até o fim. Acreditar num plano de governo ou em outro pode ser
mais uma armadilha do marketing político, pense nisso.
* INTERESSES DA MÍDIA
Existem algumas formas de se estabelecer no poder, dinheiro é uma delas, pois
dinheiro quase tudo e todos compra, controle da mídia é outra, pois não há
nada que atinja maior número de pessoas do que os meios de comunicação em
massa. Imagine a abrangência que um telejornal ou uma novela tem num país
enorme como o Brasil, provavelmente nada possa atingir tanto a população como
a TV, pelo menos atualmente. Assim como uma novela, em teoria, mostra como
é a vida das pessoas (ou vice-versa :-), um telejornal mostra as notícias
do Brasil e do mundo. Assim como numa campanha política o ideal é que tudo
fosse extremamente claro e direto, o candidato transmite sua mensagem do começo
ao fim e ponto final, num jornal o repórter deveria transmitir a mensagem
e ponto final, mas certamente não é isso que ocorre. Muitas vezes, e isso
é fácil observar, uma notícia é dada e ela pode ser dada imparcialmente, como
se fosse um daqueles comunicados em que a tela fica com um fundo colorido
e apenas aparece um texto na tela com o comunicado, mas vindo de um repórter,
ele aparece na tela e dá a notícia, você fica informado e ponto final. O problema
é que nem sempre a notícia é dada de forma imparcial, principalmente quando
o assunto é política, de qualquer espécie. Imagine que o dono de um determinado
meio de comunicação, como um jornal, uma emissora de rádio ou TV, tenha interesse
em eleger um determinado candidato, o que será que ele pode fazer para influenciar
insconscientemente seu público, que muitas vezes pode ser de milhões de pessoas,
a ter simpatia ou antipatia por um determinado candidato? Essa resposta pode
ser infinita, se ponha no lugar do editor-chefe, que recebeu a orientação
do super chefe a quem está subordinado, e você irá fazer uma reportagem sobre
o candidato que o chefão quer prestigiar. Desde mostrar trechos de entrevistas
em que ele diga apenas as "frases boas", que agradarão ao público, até a fazer
as perguntas certas, tudo pode ser feito para transmitir uma idéia boa de
alguém. O contrário também existe, caso a intenção seja derrubar um candidato
político ou qualquer outra pessoa, pode-se mostrar apenas as "frases ruins",
que causem antipatia ou até mesmo revolta no público, até filmar o candidato
de baixo pra cima, deixando-o com imagem de arrogante, mostrá-lo fazendo uma
careta no momento de um bocejo (quem nunca viu uma foto em que um candidato
está ridículo?), tudo selecionado a dedo, a notícia é dada, mas junto a ela
vai uma série de mensagens subliminares que, se não forem previamente conhecidas,
poderão passar despercebidas e ser aceitas inconscientemente, nos permitindo
ser influenciados sem perceber, esse é o lado triste da história.
Voltando ao nossso exemplo, o editor-chefe pode massificar ainda mais a idéia
de que um candidato é bom e seu concorrente é mau, pois público ele já tem
de sobra, só falta então mostrar mais vezes o candidato protegido da maneira
certa, que transmita uma mensagem boa sobre aquela pessoa, e mostrar mais
vezes o candidato desprotegido da maneira errada, que transmita uma mensagem
ruim sobre aquela pessoa. Observe nos meios de comunicação como os candidatos
são apresentados. É claro que se o responsável por tudo isso for um bom profissional,
ele fará tudo de maneira muito discreta, e muitas vezes poderá até fazer o
jogo inverso, aparentemente prestigiando o outro candidato de forma absurda,
que salte aos olhos e fique muito na cara, deixando de ser inconsciente, daí
a pessoa quando percebe o que está acontecendo pode até ficar revoltada com
tanto protecionismo e criar antipatia pelo candidato que, naquele momento,
estrategicamente, está sendo prestigiado. Isso tudo é fantástico, mas nada
como observar toda a movimentação desta engrenagem atentamente para não se
deixar influenciar e não formar um juízo de valor errado sobre alguém. Quer
transformar uma mentira numa verdade, basta contá-la mil vezes...
Passe a observar as notícias que são dadas com outros olhos, não apenas como
alguém que quer se informar, mas também como alguém que pode fazer parte de
um universo de milhões de pessoas que podem ser influenciadas pelas mensagens
inconscientes.
Se você não se importar em ser utilizado como massa de manobra, esqueça tudo
que leu até agora, mas certamente se você chegou a esse ponto do texto, está
interessado em ter outros paradigmas. Não estou aqui para tentar influenciar
ninguém, por isso não vou tentar convencer ninguém de nada, me sinto satisfeito
em poder expressar minha opinião e, quem sabe, conseguir tirar a venda dos
olhos de pelo menos alguma pessoa nesse mundo, como alguém ou algum livro
tirou a minha algum dia.
Nada como a história para entendermos o presente, pois a história é cíclica,
só mudam os personagens. Veja quem está no poder atualmente, seja na esfera
municipal, estadual ou federal, não importa quando você estiver lendo esse
texto, se no ano 2002 ou 2500, a história certamente será a mesma. Dificilmente
um governo que não atenda aos interesses de quem possui poder e dinheiro permanecerá
por muito tempo no controle. Poder e dinheiro são um conseqüência do outro,
tendo um se tem o outro. Senso assim, você conhece alguma forma de poder maior
do que os meios de comunicação, onde se pode atingir não uma ou duas, mas
milhões de pessoas simultâneamente? Provavelmente num universo de milhões
de pessoas, um número considerável delas poderá ser influenciado com facilidade
sem jamais perceberem que isso acontece, sem culpa, sem sofrimento. Bem que
dizem que o conhecimento traz sofrimento, quanto mais se conhece o mundo,
mais injustiças e manipulações são vistas e a impotência por não se poder
mudar tudo e transformar nosso mundo num mundo mais justo pode causar sofrimento
se não for bem administrado, portanto, à partir do momento em que você começar
a olhar à sua volta e, ao ligar a televisão perceber as mensagens que são
transmitidas junto com as notícias, talvez fique revoltado, mas esteja certo
de uma coisa, uma andorinha não faz verão, e se você quiser mudar o mundo,
começe pela sua cabeça.
* FINANCIAMENTO DAS CAMPANHAS
Uma campanha política envolve muito marketing político, muita massificação,
muito apoio dos meios de comunicação em massa, muitas pessoas distribuindo
santinhos, cabos eleitoriais, caminhões, comícios, viagens... enfim, envolve
muito dinheiro. Para lançar um candidato é necessário muito dinheiro, para
eleger um candidato é necessário muito mais do que muito dinheiro. Dinheiro
não cai do céu nem dá em árvore, portanto de algum lugar ele vem. Ninguém
joga dinheiro na fogueira como oferenda aos Deuses do Olimpo. Como de algum
lugar o dinheiro pra uma campanha política vem e pra algum lugar ele vai,
quem investe numa campanha política é porque aposta que determinado político,
por algum motivo, deverá vencer. Seja por motivos pessoais ou ideológicos,
o investimento numa campanha é movido a interesses e, certamente, não será
em vão. Uma vez eleito o candidato em questão, o investidor aguardará um retorno,
por melhor que seja sua intenção, o candidato terá uma dívida, mesmo que seja
moral. Se o candidato deixar bem claras suas intenções e deixar explícito
que qualquer colaboração financeira deverá ser anônima (pelo menos aos seus
olhos), pois nesse caso há isenção de dívida com aquele que investiu dinheiro,
e por um lado, quem investiu no candidato o fez por acreditar que este fará
um bom trabalho e defenderá os interesses que acredita serem os seus, pessoais
ou ideológicos. Por outro lado, o candidato não saberá quem investiu dinheiro
em sua campanha e poderá se comprometer apenas com aqueles que publicamente
se compromete, sem bastidores.
Campanhas pomposas, muito ricas, cheias de propaganda, devem ser vistas com
alguma desconfiança, pois de algum lugar aquele dinheiro que financiou a campanha
veio, e ninguém investe nada de graça. A pergunta que deve ser feita é: a
quem esse candidato ficará devendo favores? Será que no momento em que ele
tiver que aprovar um projeto, fazer uma licitação ou algo do tipo, será idôneo
e defenderá princípios éticos e morais, ou beneficiará aquele que contribuiu
em sua campanha? Não estamos falando de centenas ou milhares, mas sim de muitas
casas decimais... milhões de dólares são arrecadados em campanhas políticas,
certamente não são pessoas como eu ou você, mas grandes corporações e interesses
diversos. A idéia não é pré-julgar ninguém, por isso, tire suas próprias conclusões
sobre quem poderia ter interesse e condições de participar do financiamento
de uma campanha política. O ideal é que, como já foi dito acima, em marketing
político, que as campanhas fossem simples, desprovidas de recursos financeiros,
que pudessem no rádio se constituir apenas da voz do candidato e na TV do
candidato vestido de terno e gravata, e ponto final, uma vez que há o horário
eleitoral gratuito. É claro que tudo isso é utópico, mas é importante se pensar
nisso quando virmos uma campanha cheia de propaganda... na natureza nada se
cria, nada se perde, tudo se transforma, e que dinheiro chama dinheiro ninguém
tem dúvida, se a aposta num determinado candidato for feita e não houver isenção
e idoneidade por parte daquele político eleito em relação a quem nele investiu,
então tudo que ele fala é discurso, é pra "inglês ver", é pra se eleger e,
uma vez eleito, pagar sua dívida de gratidão não com aqueles que o elegeram,
mas sim com aqueles que o financiaram. A linha que separa um político honesto
de um corrupto é muito tênue, costumamos acreditar que um político que tenha
um vocabulário prolixo, de fala bonita, bem apessoado, estudado, culto, vivido,
viajado, com experiência administrativa, com passado político, seja a pessoa
mais indicada para governar... isso é hilário, pois todas essas características
não têm nenhum valor se essa pessoa tão preparada não tiver valores morais
e éticos que a mantenha honesta do começo ao fim de sua administração pública.
Dizem que todo homem tem seu preço, qual você espera que seja o preço do candidato
em quem você irá votar? Investimentos em sua campanha, em sua conta pessoal
no exterior, presentes, lembrancinhas, ou apenas compromisso com quem o elegeu?
Isso sim deve ser levado em conta, salvo se você for um dos investidores milionários
que representa os interesses de uma minoria, certamente não deseja um político
corrupto ou corruptível em seu governo. Um exemplo prático disso é que se
você tem um funcionário que rouba mas faz, provavelmente não o poupará, duvido
que você mantivesse um funcionário que rouba mas faz na sua empresa, ou uma
empregada que rouba mas limpa em sua casa, certamente não será seu administrador
público que você irá poupar.
Em resumo, aprecie as campanhas políticas pelo seu conteúdo, e desconfie das
campanhas massivas e milhonárias, certamente haverá muitas dívidas a serem
pagas e muitos favores a serem feitos caso o candidato se eleja.
* PRIVATIZAÇÕES
Questão muito polêmica, alguns são contra as privatizações, outros a favor.
Tentarei ao máximo não citar exemplos reais, para não causar bloqueio prévio
em nenhum leitor desse texto devido às minhas próprias opiniões.
Imagine que você é um grande fazendeiro, possui fazendas espalhadas por todo
o Brasil. Você contrata administradores para suas fazendas, os remunera bem,
confia neles, e a cada quatro anos faz uma inspeção nas suas fazendas para
ver se estão sendo bem administradas. Se tudo estiver em ordem e os resultados
estiverem sendo favoráveis, certamente o administrador estará fazendo um bom
trabalho e continuará trabalhando para você. Numa ou outra safra há prejuízo,
mas as fazendas estão sendo bem administradas, não há desperdício, e você
vai cuidar da sua vida para dali quatro anos fazer uma nova avaliação. Num
determinado momento, devido a mudanças que independem da sua vontade, todas
as suas fazendas começam a dar prejuízo e, quando você for fazer a inspeção,
descobre que seus administradores conspiraram contra você e fizeram suas fazendas
darem prejuízo para você as colocar a venda por um preço bem baixo e eles
próprio comprarem e daí novamente gerarem lucro. Então você se pergunta o
que fazer, investe boa parte do seu lucro e de outras receitas que você tem
nas fazendas, que continuam dando prejuízos, ano após ano, agora você faz
inspeções semanais, mas o quadro é irreversível, pois os administradores transformaram
suas fazendas num cabide de empregos, contrataram muito mais profissionais
do que o necessário, há ociosidade dos mesmos, um investimento perdido, pois
com um quadro muito mais enxuto e qualificado as fazendas poderiam ser administradas
perfeitamente, então você percebe que aquele monte de pessoas que trabalham
em suas fazendas são um artifício que seus administradores utilizaram para
manchar a imagem das suas fazendas, que passam a perder o valor que deveriam
ter. Os prejuízos tornam-se maiores ano após ano, pois o inflado quadro de
funcionários consome muitos recursos, ninguém trabalha de graça, e você pensa
que poderia diminuir o quadro e ter apenas os funcionários necessários, qualificados
e bem remunerados, para trabalharem nas suas fazendas, mas os seus administradores
fizeram um contrato trabalhista com todos eles em que eles estão amarrados
vitaliciamente às suas fazendas e só sairão de lá por livre e espontânea vontade
ou por justa causa, ou seja, se o funcionário for ocioso, improdutivo e resolver
jogar dominó durante todo o expediente, você não poderá fazer nada, seus advogados
sentem muito mas a lei lhes dá estabilidade e seus administradores te convencem
de que suas fazendas só dão prejuízos e que a melhor maneira de torná-las
produtivas seria as colocando à venda e deixá-las nas mãos de pessoas competentes,
pois você não está em condições de administrá-las. Daí você se pergunta, onde
foi que você errou, e descobre que seu erro foi manter aqueles administradores
administrando suas fazendas quando elas começaram a dar prejuízo, mas agora
já é tarde, pois eles foram muito ardilosos e provaram para todo mundo que
fazendas administradas por pessoas como você só dão prejuízos, ainda mais
que funcionários que trabalham para pessoas como você possuem estabilidade
e se acumulam formando um belo cabide de empregos, desobrigado de apresentar
resultados satisfatórios. A solução mostrada pro mundo todo pelos seus administradores
é que por você ser um incompetente para administrar fazendas, deverá vendê-las
para que pessoas competentes que não tenham esse vínculo com seus funcionários
possam administrá-las e fazê-las dar resultado positivo novamente. Você convence
toda sua família de que não tem jeito e que a salvação pros cofres da sua
família não esvaziarem é vender todas as fazendas e, com o dinheiro conseguido,
pagar uma parte das dívidas que você acumulou durante esses anos, uma pequena
parte da dívida apenas, pois as fazendas estão desvalorizadas, apesar de possuirem
muito potencial, foram estrategicamente mal administradas e feitas para dar
prejuízo quando os administradores combinaram com outros fazendeiros que eles
poderiam ganhar muito dinheiro se lhes desse alguma bolada.
Você coloca suas fazendas no leilão e os principais jornais locais dão apenas
uma pequena nota no rodapé sobre o leilão. Finalmente você vende todas as
suas fazendas, agora aquelas que poderiam ser grandes fontes de renda para
você e sua família desaparecem e com o dinheiro arrecadado você paga uma mensalidade
da sua dívida. Os novos fazendeiros fazem milagres com as fazendas e elas
começam a gerar receita positiva, investem um bom dinheiro nelas, tudo financiado,
para ser pago em muitos anos a um juros super baixo, e todo o mundo aprecia
a competência desses novos fazendeiros, e os administradores que trabalhavam
para você agora trabalham para eles, de alguma forma ganharam muito dinheiro
por fora enquanto você foi quase à falência. A grande maioria das pessoas
acredita, ainda, que o culpado pelos prejuízos é você, não seus administradores.
O modelo que seus administradores adotaram estava errado, mas havia toda uma
máquina burocrática por trás que impedia que esse modelo errado fosse atualizado
por um modelo que funcionasse. Todos sabiam qual era esse modelo, mas você
estava amarrado e tanto seus administradores quanto seus advogados não fizeram
o que puderam para reverter esse quadro e tornar suas empresas enxutas novamente.
Se você fosse um desses administradores e quisesse fazer a fazenda que você
administra ser desvalorizada, o que poderia fazer?
A história das privatizações é exatamente a mesma, só mudam os personagens.
Os administradores da fazenda são os administradores do governo ao qual a
estatal estava vinculada. Como puderam fazer uma empresa que tem tudo para
dar lucro dar prejuízo, de onde veio tanta incompetência??? Será mesmo que
foi incompetência, que o governo não consegue administrar uma empresa? Como
conseguirá administrar um país então? Prejuízos provocados, é como se fosse
uma grande traição. Os administradores da sua fazenda te traíram e você se
culpa por ser incopetente, mas não enxerga que sua incompetência não é em
administrar fazendas, você não é administrador de fazendas, por isso você
os contratou, da mesma maneira que você não é administrador público, por isso
nós os elegemos, para que eles façam uma boa administração, bem feita, de
maneira competente, fazer nossas fazendas darem prejuízos é sinônimo de incompetência.
Se você fosse o fazendeiro, após o primeiro prejuízo, quanto tempo mais você
manteria os mesmos administradores para cuidar de suas fazendas? Você poria
a mão no fogo por eles? O preço da paz é a eterna vigilância, e dizem que
o gado só cresce aos olhos do dono. Se você larga seus negócios nas mãos de
outras pessoas e quando vê seus negócios estão falidos e já é tarde demais,
então repense seus valores e procure vigiar mais seus administradores.
As empresas que foram privatizadas atualmente não param de dar lucros, a qualidade
do serviço em muitos casos melhorou muito, as pessoas percebem isso facilmente
porque as afeta diretamente, mas perceber tudo que ocorreu nos bastidores
é o que diferencia os conscientes dos manipulados.
A política seguida pelos nossos administradores na época que antecedeu as
privatizações foi elaborada justamente por aqueles que tinham interesses em
comprar as empresas estatais, direta ou indiretamente. Se fossem tão ruins
assim não teriam sido tão bem cotadas em seus leilões. Dado um lance inicial,
se fosse um elefante branco, um cabide de empregos ou qualquer outra coisa
impossível de dar lucro, nenhum investidor consciente teria dado nenhum lance
e as empresas estariam à venda até hoje. Não só foram vendidas por um valor
bem acima do lance inicial, dando a impressão de que foram bem vendidas, como
foram mal avaliadas, pois em alguns casos o lance final foi muito superior
ao dobro ou triplo do lance inicial. A aparência que dá é de um grande lucro,
mas vender acima do lance inicial num leilão desse porte apenas mostra que
o lance inicial estava muito subvalorizado, ou seja, as empresas poderiam
ter sido vendidas por um preço muito inferior do que valiam caso tivesse sido
dado apenas um lance. Certamente todas estavam dando prejuízos e esta foi
a desculpa, pois empresa falida vale pouco mesmo, isso é óbvio, mas e se os
prejuízos fossem artificiais, fossem forçados, se a empresa tivesse um potencial
altíssimo mas para vendê-la e por um preço baixo, fosse necessário manipular
a opinião pública para que esta se convencesse de que além de dar prejuízo
está consumindo recursos de outras áreas como saúde e educação. A população
tem um certo trauma de estatal, a mídia associou estatal a cabide de empregos,
máquina lenta, draga de recursos públicos e até mesmo ao antigo regime soviético,
onde tudo pertencia ao estado.
Muitos dizem que esse modelo de privatizações foi adotado inclusive por países
poderosos e que, por esse motivo, poderia e até deveria ser imitado pelo nosso
país. E quem nos garante que com as estatais dos outros países não fizeram
o mesmo que com as nossas??? Ou será que alguém acha que foi o presidente
de algum país que tinha altíssimos interesses em privatizações ao redor do
mundo e que ele sozinho iria comprar tudo?
A pergunta que fica no ar é: se as estatais só davam prejuízos, por que não
trocamos seus administradores??? Se fossem as suas fazendas você manteria
os mesmos administradores por quanto tempo? Alguns podem dizer que houveram
vários governos desde o primeiro prejuízo até a privatização, mas a dúvida
é com quem esses governantes tinham compromissos? Com quem os elegeu ou com
quem os financiou?
Só por curiosidade, para quem acredita que foi um bom negócio e que ganhamos
muito dinheiro com as privatizações, saiba que com o total arrecadado pelas
privatizações não pagamos o correspondente à uma única mensalidade do juros
da dívida externa, e que o lucro que as empresas estão dando agora está disponível
em qualquer revista de administração, jornal ou na própria Internet.
* PESQUISAS DE OPINIÃO
Na dúvida entre quem irá vencer as eleições, o eleitor indeciso tende a depositar
seu voto no candidato que tiver maiores chances de vitória. Essa tendência
explica-se pelo fato de que ninguém gosta de perder, e apoiar um candidato
derrotado é como ser derrotado antecipadamente. Votar num candidato com maiores
chances de vitória dá ao eleitor a impressão de que está fazendo a coisa certa,
pois se muitos outros eleitores estão votando naquele candidato que, segundo
as pesquisas de opinião, irá vencer, então essa é a coisa certa a se fazer.
Pesquisas de opinião deveriam ser utilizadas pelos próprios candidatos para
saberem o que o povo deseja num administrador público, mas na prática funcionam
como instrumento de manipulação de grandes proporções, pois o número de eleitores
convictos, que não trocam de candidato desde o início da campanha eleitoral
até as eleições, segundo as próprias pesquisas, é menor que o de candidatos
indecisos. Isso mostra que a volatilidade é muito grande e a migração de um
número considerável de eleitores de um candidato para outro pode ocorrer com
um estalar de dedos. Independente de campanha eleitoral e propostas de governo,
as pesquisas de opinião transmitem mensagens que podem influenciar na escolha
do eleitor.
Um determinado candidato começa em alta e outro em baixa, a tendência é de
que esse quadro mude e, com a chegada das eleições, aquele que estava em baixa
suba e o que estava em alta desça. Graficamente é interessante ver as curvas
de ascendência de um e descendência do outro. O eleitor que vê isso deduz
que, obviamente, a tendência é de que aquele que estava lá em cima caia ainda
mais e o que começou "humilde" chegue lá em cima, e acaba muitas vezes se
deixando influenciar por essa aparência.
Analogamente, quando passamos na frente da vitrine de uma loja em liquidação,
as etiquetas de preço costumam mostrar dois valores, o antigo e o atual, evidenciando
que agora se você levar aquele produto estará economizando uma quantia razoável.
Acabamos fazendo as contas para ver quanto estaríamos economizando se comprássemos
o produto que talvez até esteja caro, mas naquele momento está muito mais
barato do que antes. É claro que isso não é uma regra, mas quem nunca se flagrou
fazendo esse cálculo ingênuo para descobrir de quanto seria a economia? Isso
também é uma curva descendente, mas nesse caso acabamos tendo simpatia pelo
produto, por mais caro que esteja, nesse caso o que influencia a compra não
é o preço atual, mas sim a diferença com o preço antigo.
Nas pesquisas de opinião ocorre o mesmo, um candidato antes bem cotado que
apresenta queda tende a ser taxado como derrotado, pois é a diferença em relação
ao início que acaba sendo levada em conta.
Se você fosse dono de uma agência de pesquisa de opinião e tivesse interesse
na eleição de um determinado candidato, o que poderia fazer para apoiá-lo
discretamente? Colocá-lo em baixa num primeiro momento e seu adversário em
alta e depois gradativamente, mas de forma constante, inverter as proporções,
seria algo possível de ser feito, principalmente se as pesquisas fossem feitas
em lugares pré-determinados, onde sabidamente há preferência por um perfil
de candidato e no outro há preferência por outro.
Ao observar o resultado de uma pesquisa de opinião preste atenção na influência
que ela pode ter sobre a sua opinião. A pesquisa de opinião constata a opinião
dos eleitores ou as influencia???
* ACORDOS DE BASTIDORES
Imagine que dois candidatos são amigos mas, politicamente, aparentam ter grande
rivalidade. Num dia estão de braços dados, no outro candidatam-se ao mesmo
cargo público e passam a ser grandes adversários políticos. Se dois políticos
são muito amigos e sozinhos eles não conseguirão vencer outro político adversário
comum a ambos, então por quê não se juntam e praticam uma espécie de amizade
velada, onde se atacam em frente às câmeras, mas se confraternizam nos bastidores?
Se um dos dois ganhar o outro já estará com seu cargo garantido, afinal foi
tudo um teatro e quanto mais adversários um candidato tem mais forças ele
deve dispender para combater suas acusações.
Observe que nas eleições geralmente há candidatos que no passado foram grandes
aliados políticos e agora estão em lados opostos, se atacando e aparentando
querer desacreditar totalmente o seu "adversário", entretanto a grande jogada
é um dos dois ou mais se eleger, e que o candidato que de fato é adversário
de todos eles perca as eleições.
Analogamente, imagine que você tem uma loja de calçados, é a única da rua,
então algum outro concorrente abre uma loja de calçados ao lado da sua. Sua
clientela é dividida com seu concorrente, então para amenizar essa perda você
pode abrir outras três lojas também nas proximidades, a tendência é que os
clientes se dispersem pelas cinco lojas, fazendo com que o seu real concorrente
tenha apenas uma pequena fatia daquele público.
Outro exemplo interessante pode ser constatado em muitos supermercados que
vendem produtos com sua própria marca e menor preço, mas dificilmente são
eles próprios que fabricam; observe na embalagem do produto com a marca do
supermercado quem o produz e procure nas outras marcas algo que indique que
possuem o mesmo fabricante, são o mesmo produto, porém com embalagem diferente...
também assim é na política, muitas vezes as intenções são as mesmas, o que
muda é apenas a embalagem.
* PROPOSTAS DE GOVERNO
Nas campanhas políticas gasta-se muito tempo com ataques pessoais e pouco
com apresentação de propostas e maneiras de consolidá-las. As propostas de
governo são sempre muito bonitas, atraentes, porém ilusórias e na maioria
das vezes impossíveis de serem concluídas até o fim do mandato. Então pergunte-se:
pra que servem as propostas se, na prática, o candidato que as fez não poderá
cumprí-las?
Se a escolha de um candidato for baseada nas suas propostas, então certamente
aquele que tiver propostas mais atraentes, mais pobres ajudar, mais casas
construir, creches, escolas, hospitais, orfanatos, asilos e trabalhos gerar
deverá ganhar a eleição; entretanto deve-se observar que prometer é fácil,
difícil é cumprir as promessas. O que desacredita os políticos são, além da
corrupção generalizada, a falta de compromisso com os seus eleitores e, principalmente,
o povo como um todo.
As propostas são muito parecidas entre si, umas mais ilusórias, outras menos,
mas o que deve contar mesmo não são as propostas, mas sim a credibilidade
daquele que as fez. Mundos e fundos são conversa pra criança dormir, deixar-se
levar por propostas e dar menos importância para a credibilidade de quem as
apresenta é, no mínimo, ingenuidade.
* IMAGEM DE UM CANDIDATO
Imagem não é nada...
Qual é o perfil do candidato que os eleitores mais simpatizam?
Acredito que em primeiro lugar, o candidato deve ter mais cultura do que aquele
que o elegerá, isso pode ser provado pelo passado histórico do Brasil.
Cultura significa, em outras palavras, título.
Quem tem mais competência para governar, por exemplo, um país: um candidato
professor mestre doutor com phd no exterior ou um outro que mal concluiu o
2º grau?
Se cultura fosse sinônimo de competência, então o Brasil deveria ser um país
de primeiro mundo, pois desde que o Brasil é uma república apenas senhores
gabaritados ocuparam sua presidência.
Mas se não for o título, o que é então? A aparência de um candidato também
conta muito. Qual é a aparência preferida pelos eleitores, um homem de meia
idade, bem apessoado, distinto, de terno e gravata, cabelo impecável, corpo
enxuto, com um bom porte físico, ou um outro não tão bem apessoado, com marcas
de idade na face, de manga de camisa, cabelo ruim, cuja barriguinha de chopp
faz questão de aparecer? Certamente essa aparência física faz grande diferença,
mas a pergunta que deve ser feita é: faz diferença? Só se for pra inglês ver,
como diz a frase popular. Por mais macho que seja o eleitor, ele talvez de
forma inconsciente, tenderá a simpatizar por aquele candidato que for mais
"bonito", e o mesmo acontece com as mulheres, que são maioria no eleitorado
brasileiro, de forma muito menos branda que com os homens, se deixam levar
pela imagem, pelo visual.
Vocabulário prolixo, elaborado, com palavras sofisticadas, também dá uma falsa
impressão de cultura. O eleitor que desconhece algumas palavras-chave no discurso
de um candidato acaba ficando admirado com a cultura e inteligência daquele
que as proferiu, deixando-se seduzir pela falsa sensação de segurança que
um candidato que fale outros idiomas, seja culto ou aparentemente culto, bem
apessoado e aparentemente muito bem intencionado transmite.
Qualquer pessoa pode ser um poço de cultura e saber, mas isso ainda não deve
ter o peso que muitas vezes tem na escolha de um candidato; será um candidato
de boa aparência, jovial, culto, dinâmico, um bom administrador público? Ou
então será apenas imagem, uma tentativa muito conhecida por psicólogos e marketeiros
de transmitir sensação de segurança aos eleitores, de que por pior que esteja
a situação, teremos alguém "preparado" para cuidar do que é nosso.
Você deixaria todas as suas economias nas mãos de uma pessoa bem apessoada,
de fala bonita e alta capacidade de convencimento, mas que você definitivamente
não conhece a fundo? Então porque colocar nas mãos de uma pessoa com essas
mesmas características algo muito maior do que as nossas economias pessoais,
como nossa cidade, estado ou país?
Aquele cargo público que por alguém será ocupado deve ser ocupado por alguém
que seja competente, bem intencionado e não corrupto, não basta mostrar competência,
mostrar ótimas intenções e mostrar ser incorruptível. É nessa hora que imagem
não é nada... honestidade é tudo.
Se algum dia o eleitor tiver interesse em saber das verdadeiras intenções
de um candidato, deverá fazer mais do que apenas observar as propagandas eleitorais,
deverá pesquisar sobre a vida do mesmo, passado político, histórico, votações
em projetos se for o caso de uma re-eleição.
No fundo todos os candidatos sabem do que o povo precisa e o que o povo quer
escutar, e na hora das eleições têm grande habilidade para falar o que o povo
quer escutar e vender gato por lebre. Como a memória do eleitor costuma ser
curta, muitas coisas são esquecidas e como a massificação de informações e
propagandas na época decisiva das eleições é muito mais intensa do que a lembrança,
o passado acaba ficando em segundo plano e acaba valendo mais o que é sedutoramente
mostrado no presente.
Experiência administrativa costuma ser um pré-requisito muito importante,
talvez tanto quanto os títulos acadêmicos do candidato... tudo isso é título,
experiência admnistrativa pode ser algo muito perigoso se a experiência foi
mal utilizada e o político aprendeu todas as técnicas de desvio de verbas,
corrupção ativa e passiva e outras maracutaias que apenas quem ocupa tais
cargos tem acesso.
Você contrataria para administrar sua empresa uma pessoa com um currículo
da melhor qualidade, cuja experiência administrativa bate de 10 x 0 a experiência
de qualquer outro candidato ao cargo que você está oferecendo, mas que tem
uma mancha negra que mostra falta de idoneidade e valores básicos que devem
ser aprendidos no berço?
Em outras palavras, você contrataria um administrador ladrão, que irá fazer
um trabalho de madíocre a bom em sua empresa, não a deixando falir, mas que
permitirá corrupção passiva e talvez até mesmo ativa, ou abuse de seu cargo
para suprir interesses pessoais dele, que rouba mas faz?!?
Ou você preferirá um profissional que faça um bom trabalho, bem remunerado,
sem roubar? Se essa última for sua preferência, então por quê na escolha de
um administrador público deveria ser diferente?