O Apagão De Eficiência
Revista: Veja
Autor : Marcio Aith
Data : 27/04/2005
Caderno: Entrevista: Jorge Gerdau Johannpeter
Página : 11 a 15
Fonte : http://www.portalqualidade.com/noticias/noticias/NoticiasDetalhe.asp?idNoticia=4395
Fonte : http://www.sinduscon-rio.com.br/sindusletter/sindusletter_270405/n16.htm
O mais internacional
dos empresários brasileiros diz que o país não avança sem que o Estado passe
por um choque de gestão.
A evolução satisfatória da economia brasileira do último ano tem camuflado
uma doença letárgica que resiste a governos e, como já ocorreu antes, pode
abater o Brasil em plena decolagem. O motivo é a incompetência gerencial do
Estado, mal que multiplica a dívida pública, estimula fraudes e torna ineficiente
a maioria dos programas nas três esferas do poder público. O alerta é de Jorge
Gerdau Johannpeter, o mais global dos empresários brasileiros. Desde que assumiu
o cargo, em 1983, ele construiu sua própria Alca (Área de Livre Comércio das
Américas), enquanto a verdadeira não sai do papel. Do Brasil e Uruguai, onde
o grupo já tinha siderúrgicas, a produção se expandiu para outros cinco países
das Américas (Estados Unidos, Canadá, Chile, Colômbia e Argentina). O grupo
tem hoje dezesseis fábricas no exterior e dez no Brasil. Essa forte presença
internacional dá ao empresário de 68 anos um posto de observação privilegiado
das condições de fazer negócios no continente americano. Seu diagnóstico:
"Produzir no Brasil é uma guerrilha". Ele falou a VEJA na sede do grupo, em
Porto Alegre.
Veja – Qual é o melhor país das Américas para fazer negócios?
Gerdau – O Chile, sem sombra de dúvida. Da mesma forma que os brasileiros,
os trabalhadores chilenos abraçam a causa da empresa. Isso não ocorre na América
do Norte. Além disso, o Chile também possui todas as vantagens de países como
os Estados Unidos e o Canadá: um sistema tributário justo e lógico, juros
baixos e pouca burocracia. Isso o Brasil não tem. Fazer negócios aqui é uma
guerrilha. Convivemos com toda sorte de distorções. Leis em excesso, custo
alto do dinheiro e muitos impostos, cobrados de forma errada.
Veja – Qual é a distorção do sistema tributário brasileiro que mais
o preocupa?
Gerdau – Muito se fala da carga dos impostos. É fato que ela já passou
do limite da realidade econômica. Mas pouca importância tem sido dada à estrutura
de cobrança. O sistema tributário brasileiro é medieval. Se você investe 100
milhões de reais para construir uma fábrica, é obrigado a recolher 30 milhões
em impostos, antes mesmo de começar a produzir. Se esse investimento fosse
feito em outro lugar, teria custo tributário zero antes de iniciar a operação.
Os 30 milhões, ou seja, esses 30% de impostos, poderiam ser aplicados no que
interessa: no aumento da produção, na geração de mais empregos. Esse modelo
é semelhante ao de alvarás nos países medievais, onde o nobre, para dar a
autorização para o comerciante trabalhar, exigia o pagamento antecipado. Essa
cultura foi enterrada no mundo moderno, mas ainda está incrustada na burocracia
brasileira. Ainda não conseguimos romper esse traço cultural.
Veja – Qual é a diferença da carga tributária que incide sobre as empresas
do grupo Gerdau dentro e fora do Brasil?
Gerdau – Aqui, os impostos consomem 54% do valor que adicionamos ao
preço do produto. Fora do Brasil, esse porcentual é só de 14%. Em suma, é
muito difícil competir produzindo por aqui. Some-se a isso o custo do dinheiro.
Querendo ou não, sempre pagamos um resíduo de risco Brasil, mesmo nas operações
financeiras feitas no exterior. Ainda que tenhamos receitas consideráveis
em dólar e uma rentabilidade satisfatória, continuamos sendo, de alguma maneira,
a Gerdau Brasil. Isso pesa. No Chile, o risco está abaixo de 100 pontos. No
Brasil, supera os 400.
Veja – O risco Brasil não está alto demais? O país não seria melhor
do que o índice faz crer?
Gerdau – O índice está correto, assim como a percepção que os estrangeiros
têm do Brasil. Ainda enfrentamos problemas graves, e é vital reconhecê-los.
Os brasileiros incorporaram ao comportamento cotidiano várias formas de tolerância.
Cada uma delas é pequena em si, mas a soma delas gera insegurança patrimonial
e jurídica. Essa tolerância existe na forma de violações ao direito de propriedade,
entraves à recuperação de créditos, resistência ao pagamento de impostos ou
mesmo no simples ato de desrespeitar a faixa de pedestres ou jogar lixo pela
janela do carro. Todo mundo quer ser esperto, mas, no fim, todos os espertos
pagam a conta, na forma de juros mais altos e desconfiança. Outros países
já passaram por esse ciclo. Os Estados Unidos, no início do século passado,
com muita corrupção em meio à Lei Seca. O que mostra que o Brasil continua
muito atrasado.
Veja – Há saída a curto prazo?
Gerdau – Nada que possa ser resolvido num passe de mágica, mas os benefícios
vêm aos poucos quando o país se esforça para obtê-los. Estou convicto de que
existe saída. O Chile não é melhor que nós: se os chilenos conseguiram, temos
de conseguir. Não admito que uma nação como o Chile ofereça um risco menor
que o nosso. Tenho negócios lá, convivo com a população chilena e acompanho
a vida do país. Talvez nosso problema esteja nesse radicalismo comportamental,
nessa permissividade que permeia todas as esferas de nossas relações, sejam
pessoais ou não.
Veja – Mas o país fez reformas. Aprovou a Lei de Falências e a reforma
do Judiciário. Isso não conta?
Gerdau – O país acordou para esse problema, mas está vinte ou trinta
anos atrasado. Outros países conseguiram avançar mais rápido nas reformas
previdenciária e tributária, que são vitais. Somos lentos por causa de nossa
diversidade política e regional. Só que o mundo está correndo, e nós estamos
andando. Estamos perdendo momentos preciosos. Quando olho para esse cenário,
sinto angústia. A realidade é que o Brasil deveria acelerar esse processo.
Nosso esforço tem sido insuficiente.
Veja – Sob o ponto de vista estritamente econômico, e não comportamental,
quais fatores explicam juros tão altos para as pessoas físicas e as empresas?
Gerdau – Em primeiro lugar, o risco de calote é grande. Do pequeno
ao grande calote. Depois, a necessidade de financiamento do Estado suga todos
os recursos disponíveis para o crédito. Com sua dívida enorme, o governo compete
com as empresas e as pessoas físicas na obtenção de recursos dos bancos. Além
disso, existe uma tributação sobre os empréstimos que é única no planeta.
Em nenhum lugar do mundo se arrecadam tantos impostos sobre a intermediação
financeira. Essa tributação, quando existe, tem de ser a mais baixa possível
para estimular os empréstimos. No Brasil ocorre o inverso.
Veja – Como resolver o problema da dívida pública?
Gerdau – O governo gasta tanto e tão mal que a arrecadação de impostos
é insuficiente para pagar as despesas, as dívidas e ainda investir. Se lembrarmos
que, todo mês, o governo precisa financiar o equivalente a 3% do PIB brasileiro
para pagar suas contas, teremos uma carga tributária real de 40%, e não de
37%, como se divulga normalmente. É necessário mais competência e eficiência
gerencial para reduzir os gastos públicos para 30% do PIB. Assim, poderíamos
usar os outros 10% para investimentos. Teríamos pleno emprego e crescimento.
Só há prosperidade quando existe poupança pública junto com a poupança privada.
A pública tem sido nula ou até negativa nos últimos vinte anos.
Veja – A poupança privada não dá conta do recado?
Gerdau – A poupança privada brasileira, que retrata os investimentos
feitos pelas empresas, está em torno de 20% do PIB. Na China, a soma das duas
poupanças está acima de 40%. As pessoas se perguntam por que a China cresce.
É evidente: poupança. O Brasil já teve períodos com poupanças elevadas, em
que também havia pleno emprego. É claro que os investimentos, quando forem
feitos, têm de ser sérios, produtivos. Essa é a peça-chave para promover uma
reversão estrutural.
Veja – Qual é o caminho mais curto para reduzir os gastos do governo?
Gerdau – Só há uma saída: melhorar a gestão, ter mais eficiência. Sei
que é um assunto chato, ninguém gosta de falar dele, mas tenho de insistir.
Não existe segredo. Só não é simples reduzir os gastos do governo por questões
políticas. Sob o ponto de vista de gestão, seria fácil cortar despesas em
até 50% sem prejudicar os pobres ou piorar a qualidade dos serviços públicos.
A Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, adepta da qualidade total, atende
4 000 pessoas por dia e tem um custo para o estado de 95 milhões de reais.
Outro hospital público em Porto Alegre que oferece um atendimento de pior
qualidade, que pertence ao governo federal e atende 4 400 pessoas por dia,
custa 495 milhões de reais aos cofres públicos.
Veja – Onde está o segredo?
Gerdau – O segredo está na tecnologia de gestão. O setor público brasileiro,
com raras exceções, vive um apagão de eficiência. Ninguém se concentra em
reduzir as perdas e pôr fim a ineficiências. Mas isso é o que mais importa.
Estamos encantados com os recentes avanços da economia, mas nos esquecemos
de colocar a casa em ordem. O Brasil precisa de gestão.
Veja – Como o exemplo de um hospital municipal pode ser válido para
um governo que gasta bilhões de reais?
Gerdau – Essa tecnologia tem sido utilizada no mundo todo. Não só pelas
maiores companhias japonesas e americanas, como a Toyota e a General Electric,
mas também pelo terceiro setor. Até os aeroportos dos EUA passaram a usar
técnicas de gestão em qualidade total depois do 11 de Setembro. Veja o caso
de sucesso do governo de Minas Gerais. Com uma gestão eficiente, o governador
Aécio Neves zerou o déficit, pagou o décimo terceiro salário e agora tem recursos
para investir. Não há onde isso não funcione.
Veja – O presidente Lula é um bom gestor?
Gerdau – Ele tem liderança e intuição diferenciadas, é um homem extremamente
perspicaz. Mas, da mesma forma que seu antecessor, não conhece o conceito
de tecnologia de gestão. É normal que não conheça, mas espera-se que se cerque
de pessoas capazes. Infelizmente, tecnologia de gestão não está na cultura
governamental brasileira. Existe um pequeno núcleo trabalhando com isso em
Brasília, mas de forma periférica. Para funcionar, esse processo tem de ser
adotado pelo líder principal de uma instituição. No caso do governo, o presidente.
Veja – O tamanho do governo federal brasileiro não torna a missão mais
complicada do que melhorar a gestão de um hospital?
Gerdau – Só torna esse desafio mais urgente. Havendo pobreza no Brasil
e muito pouco dinheiro para investir, é um absurdo que não se faça uma revolução
na gestão dos gastos públicos. O país precisa ter essa visão estratégica.
É necessário incutir nas pessoas e no governo o elemento de austeridade. Não
há segredo: uma boa gestão é aquela obcecada em rever os procedimentos, eliminar
as perdas e ganhar eficiência. Não interessa o tamanho do problema.
Veja – Recentemente, o governo anunciou um choque de gestão na Previdência,
para evitar perdas e fraudes. É um começo?
Gerdau – Sim, foi uma ótima iniciativa. Tenho certeza de que os ganhos
serão enormes. Torço para que a medida seja adotada em outros setores. Os
portos, por exemplo, teriam condições de produzir muito mais, mas suas gestões,
mesmo em terminais privados, ainda são condicionadas a fatores políticos.
Os programas sociais também teriam enorme ganho de eficiência com a melhoria
de gestão.
Veja – Quais são os ministros mais eficientes do governo Lula?
Gerdau – Os da área econômica: Antonio Palocci e Luiz Fernando Furlan.
O Zé Dirceu também é muito hábil, altamente competente. Só que carrega o ônus
de ter de gerenciar uma dualidade comportamental do partido. De um lado o
PT apóia a gestão econômica do governo. De outro, a combate.
Veja – Pode-se creditar ao atual governo o mérito das boas notícias
econômicas, como o aumento das exportações e o crescimento?
Gerdau – O Brasil foi beneficiado por uma expansão sem precedentes
da economia mundial. O mundo vive um ciclo raro de crescimento. As três macrorregiões
– EUA, Europa e Ásia – estão crescendo simultaneamente. Não me lembro de isso
ocorrer antes. O Brasil entrou nesse embalo, o que explica o crescimento de
5% do PIB em 2004. Mas isso não seria possível sem a adoção de ações firmes
de combate à inflação. A confiabilidade da política econômica encorajou os
investimentos empresariais.
Veja – As siderúrgicas estão fazendo fusões em todo o mundo. Não seria
natural uma fusão entre Gerdau, CSN e Usiminas?
Gerdau – Setores como os de cimento, petroquímico ou de alumínio já
concluíram o processo de consolidação. Na siderurgia, a consolidação vem ocorrendo
gradativamente e ainda tem um bom caminho para percorrer. O problema é que,
no Brasil, as companhias se fundem quando uma delas apresenta fragilidades.
Só que essas três empresas que você citou estão muito bem de saúde. Portanto,
são compradoras, e não vendedoras. Por essa razão, o processo de consolidação
é relativamente difícil de acontecer por aqui.
Veja – Quando o senhor assumiu a presidência da Gerdau, em 1983, a
empresa faturava 456 milhões de dólares. Em 2004, esse número ficou em 8,8
bilhões de dólares. O senhor pensa em vender a companhia?
Gerdau – Tenho tanta convicção do que faço que simplesmente não considero
essa hipótese. Estamos interessados em aquisições, não em vender. Além disso,
um estudo da Universidade Harvard provou que as empresas com controle familiar
têm rentabilidade 15% superior às de mercado. Por que nossos funcionários
e parceiros gostam da Gerdau? Porque nossos valores são os mesmos que eles
defendem para seus filhos. Essa combinação é imbatível.
Veja – O grupo Gerdau começou com seu bisavô, em 1901, e permaneceu
no comando da família até hoje. Como anda o processo de sucessão?
Gerdau – Caminha de uma forma totalmente profissional. Ainda não está
definido se a futura liderança dos negócios será exercida por um integrante
da família ou não. Isso significa que o processo é aberto, ou seja, segue
critérios absolutamente profissionais, buscando a sustentabilidade do negócio
a longo prazo, independentemente de laços familiares. Como dizia meu pai,
quem desejar os postos de maior significação, que apresente as suas credenciais
de trabalho, capacidade e dedicação.