OMO Para Prefeito
Site :
Agência Carta Maior
Autor : Emir Sader
Data : 15/10/2004
Fonte : http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?coluna=boletim&id=1004
Fonte : http://www.pt.org.br/site/artigos/artigos_int.asp?cod=752
A campanha
eleitoral para prefeito de SP reproduz o mesmo mecanismo que leva as pessoas
a responderem “Omo” para a questão: "Quem lava mais branco?". Um
candidato é promovido como o melhor pelos dois maiores jornais paulistas,
e sua adversária é desqualificada sistematicamente.
"Omo lava mais branco. Omo lava mais branco. Omo lava mais branco." "Quem
lava mais branco?" Quando a resposta é avassaladora a favor de "Omo", o resultado
não expressa a opinião do consumidor, mas a efetividade da campanha de publicidade.
É isso que mede a pesquisa, que instala um jogo de bumerangue entre os produtores
do "consenso fabricado" – na expressão de Noam Chomsky – e as vítimas passivas,
que reagem como cachorrinhos da experiência de Pavlov diante dos estímulos
a que os submetem (vejam-se os eloqüentes relatórios da Mídias Watch, significativamente
desconhecidos pelos jornais que exercem alegremente o monopólio privado da
mídia).
A campanha eleitoral para prefeito de São Paulo reproduz um mecanismo similar.
Um candidato é promovido como o melhor pelos dois maiores jornais paulistas
– valendo-se de um monopólio privado da mídia – e sua adversária é desqualificada
sistematicamente. As pesquisas testam a efetividade da campanha, que devolve
aos produtores monopólicos da opinião pública o resultado satisfatório de
sua imposição totalitária.
Não importa se o candidato é um aventureiro, que já foi candidato a tudo,
que abandonou os cargos que ocupou em busca de mais poder – a começar por
sua carreira de líder estudantil, que culminou com sua eleição para a presidência
da UNE (União Nacional dos Estudantes), onde decretou greve geral no golpe
e abandonou o país em seguida, para só retornar quando os riscos maiores da
resistência tinham acabado.
Não importa se deixou seus mandatos no Legislativo para exercer cargos de
poder no Executivo quando foi eleito – lembram-se de quem exerceu o mandato
de senador que ele conquistou, para ressaltar os riscos de se ter um prefeito
eleito como vice, sob enormes suspeitas de corrupção?
Não importa se São Paulo nunca teve um conjunto de políticas sociais tão distribuidoras
de renda, o que interessa é atacar o aumento dos impostos que tornou possível
essas políticas –sistematicamente desconhecidas pelos dois jornais –, acirrando
a consciência egoísta da classe média, que assim não lutará por uma ordem
social mais justa, mas aceitará a política truculenta de segurança pública
do governo do Estado, que ameaça estender suas garras sobre a prefeitura.
Não importam as incongruências de dizer que vai diminuir os impostos, mas
vai manter as políticas sociais, financiadas por esses impostos. Mente quando
diz que vai baixar os impostos. Ou mente quando diz que vai manter as políticas
– agora já confessa que vai parar com os CEUs (Centros Educacionais Unificados).
Ou mente as duas vezes, porque nem vai baixar os impostos, nem vai manter
as políticas sociais.
O que interessa é a promoção do candidato favorito da Avenida Paulista, dos
bancos, dos sentimentos conservadores da classe média e da burguesia paulistana
– que deixaram de ser malufistas para ser tucanos. E se algo não funcionar,
aí estão as vastas páginas desses jornais, onde não há uma única voz dissonante,
entre cobertura e colunistas.
Parece que não existe mais direita, Jorge Bornhausen, Chalita, Alckmin, tucanos,
FHC, capital especulativo, sistema bancário. Existe apenas o antipetismo,
que amalgama diferentes vozes em único coro: derrotar o PT, onde quer que
seja – em Porto Alegre ou em Campinas, em São Paulo ou em Belém.
A imprensa privada paulista revela assim como tão pouco se democratizou no
Brasil com o fim da ditadura. Como continuam nas mãos de algumas famílias
a propriedade das grandes empresas de comunicação, que tentam fazer passar
suas opiniões e interesses como os da "liberdade e da democracia", gritando
em uníssono quando o governo tenta regulamentar minimamente atividades que
recebem subvenções, isenções e perdões de dívidas dos impostos pagos pela
mesma população vitimizada pelas ações monopólicas desses órgãos.
Se Omo ganhar, será uma vitória da ditadura monopólica da mídia privada, que
terá do que se regozijar. Mas, se como na Venezuela o povo votar contra essa
imposição, esse consenso fabricado, aí sim terão ganho a democracia, a distribuição
de renda e a possibilidade de participação popular. E terá sido derrotado
o Brasil que concentra renda, exclui direitos e condena ao massacre os jovens
e crianças pobres das periferias.
Sobre o autor: Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório
de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".