[Foto de uma mulher com uma criança no colo e outras onze atrás: pobreza]
Mercedes (em pé), com doze dos dezessete filhos
O município de Bagre, a catorze horas de barco de Belém, no Pará, orgulha-se de
ser a terceira cidade brasileira com a maior média de nascimento de filhos por
mulher (7,3), perdendo apenas para Tartarugalzinho e Pracuuba, ambas no Amapá.
Segundo o IBGE, 39% das 2 521 mães do município têm mais de seis filhos. Há três
anos, a prefeitura organizou um concurso para eleger a dona da maior prole da
cidade. As finalistas foram uma mulher de 45 anos e outra de 38, cada uma com
22 filhos. O atual prefeito de Bagre, Pedro Santa Maria, tem explicação singela
para a excepcional fertilidade da cidade: "Menos de 30% das residências daqui
têm televisão", diz. "Isso faz do sexo umas das principais opções de lazer da
nossa população." Há, sem dúvida, outras razões.
Bagre tem renda per capita anual de 20 dólares (a média nacional é de 2 800 dólares)
e metade da população ganha menos de 25% do salário mínimo. Mais de um terço dos
seus 8 792 habitantes em idade escolar nunca entrou numa sala de aula e outros
40% não estudaram mais que três anos. À miséria e à baixa escolaridade soma-se
o fato de que só recentemente a cidade ouviu falar em planejamento familiar. "O
governo começou a distribuir pílulas e preservativos apenas em 2001", diz o secretário
de Saúde municipal, Carmelino Nunes. A iniciativa, ao que parece, deu poucos resultados
até agora. Apenas 32 casais, 25 homens solteiros e 29 mulheres vão ao posto de
saúde regularmente retirar preservativos e só 39 mulheres comparecem ao local
em busca de pílulas. "É quase nada, mas é muito quando se sabe que estamos em
um lugar em que os homens não admitem usar camisinha e, muitas vezes, proíbem
às mulheres que se consultem com ginecologistas", afirma o secretário Nunes.
Como ocorre em boa parte das regiões mais pobres do Brasil, com economia baseada
no extrativismo e na agricultura familiar, muitos casais desejam famílias grandes
baseados na crença de que cada filho é um par de braços a mais para trabalhar
na lavoura. "O bom de ter muitos filhos é ter mais gente para ajudar no trabalho
quando precisa", diz Mercedes dos Santos, 41 anos, dezessete filhos e uma única
fonte de renda fixa: os 95 reais do programa do governo federal Bolsa Família.