José Saramago Questiona A Ilusão Do Mundo Democrático
Site :
Agência Carta Maior
Fonte : http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?coluna=reportagens&id=2218
Fonte : http://www.unafisco-sp.org.br/Secao.asp?IdNot=4978&IdSec=36
Autor : Erika Campelo
Data : 23/08/2004
Em entrevista
exclusiva, o escritor português José Saramago questiona a democracia fundada
só nas eleições, e afirma que “os governos que elegemos, no fundo, são correias
de transmissão das decisões e das necessidades do poder econômico".
Paris – O escritor português José Saramago deve desembarcar no Brasil apenas
em novembro para o lançamento de seu último livro, "Ensaio sobre a lucidez"
(Companhia da Letras, 2004). A obra, que gera polêmica na Europa, traz a história
de um país imaginário onde os votos das últimas eleições não se dividiram
entre partidos da direita e da esquerda, como de costume. Naquela ocasião,
para espanto de todos, venceu o voto em branco.
O questionamento de Saramago sobre o processo democrático evolui para a análise
das reações do governo, na polícia e da mídia depois do pleito. Após um suspiro
autoritário, fica mais clara a alegoria que o autor apresenta sobre a fragilidade
dos rituais democráticos, do sistema político e de suas instituições.
"Ainda estou sofrendo as conseqüências deste "Ensaio sobre a Lucidez"", brincou
Saramago, em entrevista concedida na capital francesa. "Em Portugal foi um
escândalo. Nas duas semanas seguintes à publicação, saíram mais de 40 artigos,
publicados pelos conservadores de direita, atacando o livro, sem mesmo o ter
lido. Atacavam o autor dizendo que eu queria destruir a democracia. Um articulista
disse que não era de se surpreender, pois eu era stalinista", afirmou o porutguês,
rindo. "Na verdade, todos entraram em pânico".
Segundo comentário divulgado pelos editores da Companhia das Letras, o que
Saramago propõe não é a substituição da democracia por um sistema alternativo,
mas o seu permanente questionamento. É através da ficção que Saramago "entrevê
uma saída para esse impasse - pois é a potência simbólica da literatura que
se revela capaz de vencer a mediocridade, a ignorância e o medo".
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Pergunta - Qual é sua crítica quanto à democracia atual?
José Saramago - Problemas como a globalização e a guerra têm de ser
vistos, do meu ponto-de-vista, a partir de uma questão política fundamental,
que é a democracia. Porque no fundo o que se passa é que todos estamos de
acordo que vivemos em um sistema democrático, portanto somos cidadãos, somos
eleitores, há eleições, votamos, forma-se um parlamento, e a partir desse
parlamento, forma-se uma maioria parlamentar. Temos os juízes, tribunais,
temos todo o esquema montado. Este esquema é formal. Mas até que ponto se
permite que esse sistema seja substancial? Vivemos dentro de uma bolha, que
eu chamo de bolha democrática, onde tudo funciona perfeitamente.
Estamos aqui hoje em Paris, mas podíamos estar em Lisboa, ou São Paulo, ou
Rio, e sabemos que a sociedade funciona de uma certa maneira. O que é o funcionamento
das instituições democráticas, isso chega até onde? Chega até a capacidade
do cidadão de eleger um governo. Se não está satisfeito com este governo,
nas eleições seguintes pode tirar este governo e por outro, que isso traz
mudanças sim. Mas mudar de governo não significa mudar o poder, e este é o
drama da democracia. Para dar um exemplo muito simples, nós sabemos que vivemos
hoje voltados para o mercado de trabalho. Mas vivemos hoje em uma situação
de emprego precário, misticamente designada de mobilidade social.
Minha pergunta é esta: dá para acreditar, para usar uma expressão brasileira,
que algum governo no mundo se sentou para deliberar, e algum ministro teve
a idéia, de acabar com a idéia do pleno emprego, e passar para o emprego precário?
É completamente impossível. Eu não acredito que nenhum governo tomou esta
decisão. No entanto, o emprego precário existe no mundo inteiro, ninguém tem
segurança no emprego, pode acontecer que hoje uma pessoa tenha o seu, e amanhã
já não o tenha. Esta é hoje a realidade do mercado de trabalho. Portanto,
da onde veio esta necessidade de transformar a idéia do pleno emprego naquilo
que é hoje o emprego precário?
Evidamente, veio de cima, quero dizer, veio do poder econômico, a quem não
convém existir segurança no trabalho, a quem não convém continuar com suas
fábricas instaladas em países com exigências quanto ao horário de trabalho
e a salários altos. Vão colocar suas fábricas nas Filipinas ou na Indonésia,
onde essas exigências não existem, onde não há sindicatos, e as pessoas trabalham
10 ou 12 horas por dia. Portanto, se é assim, chegamos a uma situação preocupante.
Os governos que elegemos, no fundo, são correias de transmissão das decisões
e das necessidades do poder econômico, e os governos não só funcionam como
correias de transmissão, mas também como os agentes que preparam as leis,
como as que levam ao emprego precário.
O drama está aí. O poder econômico sempre existiu, o poder político sempre
esteve ligado a ele, sempre existiu um concubinato entre esses dois poderes.
Mas os cidadãos estão aqui embaixo. E como eles poderiam expressar suas angústias,
dúvidas e necessidades junto a este poder econômico? Em príncipio, seria através
do mesmo governo que serve de correia de transmissão. Mas não podemos ter
qualquer esperança de que esses governos digam ao poder econômico, representado
hoje pelo FMI, que as condições que vocês nos impõem são terríveis. Há um
problema, que na minha opinião, é fundamental da democracia: ou ela transcende
o poder da tal bolha que falei, tendo uma ação fora dela, ou vamos continuar
a viver na ilusão do mundo democrático.
Nós vivemos numa plutocracia, um governo dos ricos, e são eles que governam.
Aristóteles dizia que em um governo democrático, os pobres deveriam ser maioria,
porque são em maior quantidade que os ricos. Dizia ele, inocentemente, que
era só uma questão de respeitar a proporção. Mas isso já aconteceu alguma
vez? Claro que não. Se criarmos um partido pobre, ele não duraria muito tempo,
porque um partido pobre não tem muita coisa para prometer.
Pergunta - A solução pode vir dos movimentos sociais?
JS - Não, os movimentos sociais não avançam todos na mesma direção,
ao mesmo tempo, para reinvidicar a mesma coisa. Sabemos que não é assim. Mas
temos que levar em conta que o poder econômico está organizado. Os movimento
sociais não aparecem juntos. Claro que propõem alternativas, isto é o mais
fácil, mas enquanto elas não forem colocadas à prova, não sabemos o que elas
valem.
Pergunta - Como o senhor vê a Revolução dos Cravos, cujos 30 anos são
celebrados neste ano?
JS - A Revolução tinha um projeto. Havia o que podíamos chamar, para
a primeira Constituição, de um projeto de socialismo claro. Mas não ficou
nada disto. Hoje em Portugal podemos comemorar a revolução que acabou com
a ditadura fascista e nos trouxe a democracia, mas evidentemente tenho de
acrescentar que não ficaram rigorosamente nada daquelas idéias de transformações
sociais. E, pior ainda, digamos que passamos de um momento histórico da vida
portuguesa, onde as pessoas eram capazes "de construir seu próprio futuro"
para um momento de apatia total.