As Ilhas De Excelência Da Fraude
Jornal : O Estado
De São Paulo
Data : 04/06/2004
Caderno: A3 - Notas e Informações
Fonte : http://jpdf.estado.com.br/index.php?E=SP&D=04/06/2004
As revelações
sobre a corrupção de longa data estabelecida no Ministério da Saúde trazem mais
uma vez à tona a questão dos mecanismos institucionais necessários para, em
primeiro lugar e sobretudo, dificultar ao limite do possível a formação e atuação
de quadrilhas para a rapina do dinheiro público. À parte quaisquer outros fatores,
esses mecanismos serão tão mais indispensáveis e complexos quanto maior for
a incidência de assaltos ao erário.
Esta, por sua vez, tem relação com fatores histórico-culturais que variam de
sociedade a sociedade, sem falar da ipsa humana natura. O esmiuçamento desses
fatores, no que toca ao Brasil, escapa ao objeto deste comentário. Basta registrar
que, se no mundo inteiro a ocasião faz o ladrão, em alguns países há mais ocasiões
do que em outros, ou ainda, em alguns países há menos inibições do que em outros
para se tirar partido das ocasiões existentes.
Os mecanismos de prevenção do furto no âmbito do Estado equivalem ao chamado
policiamento preventivo na vida civil e - a associação é inevitável, dado o
local do crime que está na ordem do dia - à medicina preventiva na proteção
do organismo contra os agentes patogênicos do ambiente. No Brasil, embora desde
a era Collor tenha se aperfeiçoado o desvendamento de fraudes cometidas na administração
pública, nela as máfias são mais competentes do que os guardiães do patrimônio
coletivo.
Já se ressaltou neste espaço que a gangue do sangue na Saúde constituiu um corpo
estável e capaz - exatamente o que deveria ser o aparato burocrático para bem
servir aos brasileiros. Eliminar no nascedouro ou no mínimo conter a desenvoltura
dessas criminosas "ilhas de excelência" é o desafio a que o Estado brasileiro,
em qualquer dos seus níveis e esferas, ainda não respondeu satisfatoriamente.
Para tanto pouco podem órgãos como a Controladoria-Geral da União e os tribunais
de contas.
Estes ou só intervêm a posteriori ou, como ficou desalentadoramente claro no
caso das fraudes nas obras do TRT paulista, os seus alertas de que grossas irregularidades
podem estar em curso acabam não tendo qualquer efeito positivo. Se a idéia,
como tem que ser, é a de instalar trancas antes que as portas sejam arrombadas,
novos cuidados e novos procedimentos administrativos sistemáticos precisam ser
adotados. Os cuidados - não há escapatória - devem incidir sobre as pessoas.
É inaceitável que funcionários com poder de decisão sobre grandes somas não
passem por severo escrutínio prévio, mesmo que gozem da confiança das autoridades
que os nomearam. Tem razão, a propósito, o deputado Joaquim Francisco, do PTB,
candidato a prefeito do Recife, ao comentar que "não se pode ter sido santo
aqui e demônio lá". Ele se referia a Luiz Cláudio Gomes da Silva, o agora incriminado
assessor do ministro Humberto Costa, com quem trabalhou na Secretária de Saúde
do município.
O ministro, por sinal, acha que funcionários desse nível deveriam comprovar
periodicamente a origem de seus bens. E os seus eventuais sinais exteriores
de riqueza deveriam acender luzes de alarme. De fato, o servidor público não
pode aspirar à mesma privacidade do cidadão comum. Já os atos licitatórios e
de liberação de recursos, nas diversas fases, precisam ser auditados por outros
funcionários, além daqueles diretamente envolvidos nessas rotinas, antes das
decisões finais.
Mas que ninguém se iluda: essas desejáveis modalidades de policiamento preventivo
no interior da máquina têm um preço - em sentido literal e figurado - eventualmente
alto. É consenso que o País requer burocracias públicas ágeis, enxutas, modernas
e profissionalizadas. No entanto, quanto mais rigorosos e abrangentes forem
os sistemas destinados a assegurar que elas sejam também honestas, tanto mais
quadros serão necessários, tanto mais volumoso será o papelório gerado e tanto
mais vagarosa será, afinal, a operação do aparelho estatal.
A sociedade deve ter claro que, assim como uma estrada esburacada aumenta o
"custo Brasil", a redução das ocasiões que fazem os ladrões, e afinal é disso
que se trata, aumenta o "custo Estado". Em um contexto inteiramente diverso,
o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, disse anteontem que "não somos
uma democracia nórdica". Pois, enquanto o País não contar tampouco com uma administração
de padrões nórdicos no manejo do dinheiro da sociedade, esta mesma sociedade
terá que pagar um "adicional anticorrupção". Do mesmo modo, guardadas as proporções,
que se paga cada vez mais pela segurança pública. E não há escolha.